A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Dias de chuva

(Maurilio Tadeu de Campos)

Dias chuvosos marcaram o início do outono, um convite para ficar em casa vasculhando gavetas, colocando em ordem papéis em desalinho, organizando a vida. Porém, o dever do trabalho chama e é preciso enfrentar as adversidades do tempo. O som do cais, misturado ao despertar de um novo dia, evoca à lida. As ruas da cidade nos dias de chuva nos obrigam a movimentos lentos e, por isso, a paciência deve ser mais bem exercitada. O desfile de guarda-chuvas faz-me recordar tempos idos, em imagens que remetem à nostalgia, às lembranças de períodos mais ingênuos e saudáveis. A chuva tem o poder mágico de mudar a visão da cidade, cuja paisagem fica diferente daquelas que vemos em dias ensolarados, rotineiramente descontraídos.

Através do para-brisa do carro observo pessoas de semblantes circunspectos e as imagino compenetradas em seus pensamentos, como se a chuva as motivasse à seriedade, notada nessas ocasiões. Em meio a tudo isso, percebo um rapaz de roupas molhadas que chama a minha atenção. Ele insiste em angariar auxílio, de mãos sempre estendidas, enquanto o sinal fechado mantém o trânsito parado no cruzamento. Noto que poucos se atrevem a arriar o vidro para oferecer a esse moço algumas moedas. Ele se aproxima e eu dou o que encontrei na carteira, moedas que constituem um auxílio momentâneo diante da sua necessidade, que é muito maior do que a ajuda prestada. Esse provável morador de rua não conhece o conforto de um lar, o despertar numa cama confortável, um saudável banho matinal, um café da manhã saboroso, nem a possibilidade de usar roupas limpas. Dentro do meu carro constato a inexplicável desigualdade entre seres da mesma espécie e fico me questionando a respeito da dignidade perdida por pessoas que perambulam pelas ruas. Quais as perspectivas delas diante da vida? O que poderíamos fazer para minimizar tal situação?

Faço parte de um grupo de assistência e, semanalmente, aprendo a lidar com pessoas que procuram a nossa entidade em busca de auxílio. É um trabalho que considero importante. Ao mesmo tempo, sei que toda a ajuda proporcionada é um paliativo diante da complexidade dos problemas que esses indivíduos enfrentam. Todos nós, decididamente, ficamos preocupados com a situação desses habitantes das ruas, creio. Muitas entidades públicas e privadas desenvolvem programas de amparo a pessoas necessitadas durante todo o ano e reforçam essa assistência nos meses mais frios. Porém, a quantidade de pessoas a serem atendidas não diminui e o trabalho precisa ser continuado de forma eficaz, com recursos insuficientes para o seu pleno sucesso. As associações filantrópicas tentam trabalhar, também, a autoestima das pessoas por elas amparadas com atividades de lazer e com trabalhos que ocupam a mente, suavizando os sofrimentos. Nenhum grupo, porém, consegue resolver a questão na sua totalidade porque esbarra no livre arbítrio, que faz com que essas pessoas "decidam" permanecer nas ruas, maltrapilhas, sujas, desnutridas, muitas delas também dependentes de bebidas alcoólicas ou de drogas ilícitas.

Volto para casa à noite com a mente repleta de lembranças de rostos entristecidos, olhares alheios, mãos estendidas nas transversais da vida, tudo isso aliado as manifestações frias dos transeuntes que oferecem suas moedas e que proporcionam, sem o querer, certo desalinho, um quase desejo de ajudar a quem não pode usufruir das condições dignas de sobrevivência, particularmente nos dias chuvosos e mais frios do outono e do inverno. As diferenças permanecem instaladas na sociedade mesmo que, na Lei Maior, esteja bem definido o princípio de que todos são (ou deveriam ser) iguais diante dela.

(publicado no Jornal A Tribuna, de Santos, coluna "Tribuna Livre")

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