A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

Eu e eu

(Marco Antonio Rodrigues)

Meu criador é muito sábio e surpreendente, pois esse cara que vejo refletido no espelho, que mede 1 metro e 85 centímetros, que pesa quase 100 quilos, me fez acreditar, durante muitos e muitos anos, que ele era eu. Mas, para minha surpresa, descobri que esse não sou eu!

Eu, o eu principal, o verdadeiro eu, sou aquele que conduz o eu grandalhão ao banheiro, ao espelho, que pensa e ordena o que o eu casca vai fazer, qual será seu próximo movimento.

Eu sou aquele que julga o que é certo ou errado, sou aquele que vez por outra se desarmoniza com o bonitão que me conduz. Ele às vezes quer uma coisa e até concordo, mas depois compreendo que o oposto é o melhor, outras vezes cedo às pressões desse camarada que, por vezes, insiste e persiste em errar.

O eu falso sente frio, fome, calor, dor, sono...

O verdadeiro sente saudade, medo, alegria, tristeza, arrependimento e uma dor diferente da dor que o outro sente, é uma dor muito mais aguda.

A simbiose é perfeita, um depende do outro. O verdadeiro depende do falso, pois o falso possui algumas limitações, algumas fraquezas que são necessárias para o engrandecimento do autêntico.

Eu, o verdadeiro, sou o que estou redigindo esta página, mas o outro está dificultando minha capacidade de raciocinar e de enxergar, os olhos desse brutamonte fracote já estão pregando. É! Não vai dar para terminar, vou ter que colaborar, afinal eu preciso de suas mãos para redigir o texto, mas ele está muito cansado.

Como eu dependo dele, tenho que colaborar e, aproveitando que ele vai dormir, vou dar umas voltas por aí, quem sabe até o Alasca ou Cazaquistão, mas sempre atento com meu camarada, que ainda vai levantar de madrugada para urinar.

Dualize-se.

  • 72 visitas desde 18/04/2017
últimas crônicas
Copyright © 1999-2017 - A Garganta da Serpente