A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Papo de família

(Ivaldo Gomes)

Domingo à noite estou conversando com minha esposa em casa quando chegam da rua nossos três filhos que tinham ido ver uns amigos na Praça da Paz aqui no Bairro Bancários onde moramos. Do lado de fora do portão de mais de dois metros de altura, um deles fala:

- Pai tem uma notícia boa e outra ruim. Pergunte primeiro pela boa.

- Qual é a notícia boa?

- Estamos vivos.

Pois não é que a notícia ruim era que eles tinham sido assaltados mais uma vez. Acho que já é a terceira vez em dois anos. Justo no período da adolescência de quem começa a aprender andar sozinho nas ruas de João Pessoa. Agora é assim, você sai e não sabe mesmo o que pode encontrar pela frente. Pode ser simplesmente assaltado em uma esquina por dois adultos em cima de bicicletas que se aproximam de você, apontam uma arma, toma o que pode de você e vão embora assim, pedalando como se nada tivesse ocorrido ou que aquele ato de ameaçar alguém com uma arma e assaltá-la fosse uma coisa banal. E é aqui onde eu mais me preocupo. Pois tudo está ficando banal demais.

O pior de tudo não é só o prejuízo financeiro. Pois esse com um tempo serão superados. Mas e o trauma, o medo que fica instalado no assaltado? A falta de paz que cria nas pessoas, a desconfiança a sua volta, a revolta que fica? O sentimento de desprezo que se estabelece por pessoas que agem dessa maneira? A incerteza que se instala?

Mas fiquei surpreso mesmo foi quando os meninos começaram descrevendo a ação dos meliantes e a reação estampada na cara de cada um, com a raiva de que eles não tinham esse direito de fazer o que fizeram.

Perderam um celular e dezesseis reais. Mas ficaram assustados e achavam em tom de revolta que a polícia devia 'matar essas misérias'. Ou seja: mais violência. Eu questionei que a saída não era mais violência e tive que ouvir na bucha que:

- os pacifistas que você tanto admira foram assassinados. Como morreu Gandhi, Luther King, Lennon não foi assassinado?

- o governo faz campanha pra desarmar o cidadão, mas os bandidos ficam todos armados assaltando a gente, ameaçando as pessoas e ai?

- as pessoas deviam era se armar e mandar bala nesses safados que vivem a roubar e fica tudo por isso mesmo. Bandido bom é bandido morto.

Eu ponderei que não era com mais violência ou com mais armas que a gente iria conseguir viver em paz por aqui. Que a falta de uma educação pública de qualidade e de políticas públicas sérias, poderia redistribuir a nossa riqueza de forma mais justa, onde o talento, a experiência, a preparação, a capacidade, fosse critérios para valorizar o trabalho das pessoas e as oportunidades.

- que oportunidade pai, onde a maioria fica de fora de tudo? Acorde, pois o senhor com essa coisa de bonzinho, educadinho, vai terminar sendo vítima dessa gente ruim.

Meu Deus tem alguma coisa de errado no coração desses jovens de tão pouca idade e tanta raiva guardada contra a opressão e a violência social. São jovens vítimas de uma sociedade violenta que se espalha como rastro de pólvora e a lei da força bruta vai tomando conta e só o medo de uma força maior impede que o outro ataque, roube, mate, por um simples par de tênis.

Onde vamos parar com isso? Pergunto a mim olhando três jovens acabados de ser assaltado em seus sonhos 'de que é possível se viver num mundo de paz e fraternidade'. Estão perdendo as esperanças em um mundo melhor tão cedo. Eu sei que cabe a mim reanimá-los, estimulá-los a pensar diferente e dissuadi-los que a lógica não é violência, mais violência. Mas justamente o contrário. Menos violência, gerando menos violência.

Além de termos que viver nessa vida cheia de perigos por todos os lados, ainda temos que educar nossos filhos para que eles não sejam vítimas dessa violência ou que não ajude a aumentá-la, seja causando mais violência ou sendo vítima dela. E ai a gente se percebe desprotegido e ai até entende que achar que Deus é quem vai mesmo nos proteger. Pois do jeito que vai, se a gente não se organizar para enfrentar esse problema da violência pública, talvez nem Deus dê jeito.

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