A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O ladrão

(Aristides Dornas Júnior)

Um dia conheci um ladrão. Era um larápio profissional. Andava pelas ruas da minha cidade natal impune. Passava diante dos policiais sem disfarce e nem assim ia preso. Certa vez, me perguntou:

- Não quer entrar para a profissão?

Eu era católico, de mãe e pai católicos, que repudiavam a desonestidade, mínima que fosse. Perguntei-lhe:

- Como se chama?

- Prefiro o anonimato - ele respondeu.

Desse encontro, o resultado foi que cheguei em casa e dei falta da minha carteira de dinheiro e da magra mesada que recebia de meus pais. Não tive onde reclamar.

Passaram-se anos. Certa vez, depois que me mudei para a capital, eu o vi numa esquina. Eu já era adulto, não tinha mais as feições de um garoto com que ele me conhecera. Ele é que não mudara muito, apenas tinha os cabelos mais brancos do que antes. Eu me aproximei:

- O senhor não é o sr. L?

- Sim, sou eu mesmo.

- Não será capaz de se lembrar de mim?

- Com efeito, não me lembro.

- Nasci em xxx.

- Ah, sim, trabalhei lá - ele disse.

- Continua na mesma profissão? - eu perguntei.

Ele não respondeu. Seu rosto mostrou um pouco de susto, como o de um menino que é pego roubando doces da compoteira. Se afastou. Eu me encaminhei para o ponto de ônibus, fiquei no ponto esperando o veículo que me conduziria à casa. Foi quando dei falta, de novo, da minha carteira de dinheiro e dos meus documentos. Fui à pé para casa. E, certo dia, o vi na televisão, ele tinha sido detido. Acusavam-no de ter assaltado um banco. Foi entrevistado na delegacia e disse aos repórteres:

- Eu sou inocente.

Fiquei pensando na facilidade com que os delinqüentes mentem. Como já escrevia, escrevi um longo texto sobre a mentira. Começava com um lugar comum, mais que comum: "A mentira tem pernas curtas". E acabava com um conselho aos leitores: "Nunca mintam".

Se agora pensarem que estou mentindo visitem a delegacia do distrito xxx e vejam com os próprios olhos o velho ladrão. Talvez não tenham tempo para isso, pois como foi a primeira vez que ele foi preso, foi tido como réu primário e responderá ao processo em liberdade.

Estava nesse ponto de meu texto, quando a janela do meu quarto foi arrombada. Por ela entrou ele, o velho ladrão. Não teve piedade de mim, limpou meu quarto, levando-me todos os pertences de valor. Fiquei apenas com este manuscrito e uma cópia da queixa que dei na delegacia do meu bairro depois da ocorrência. Não pude ir para o escritório onde trabalho, faltava-me dinheiro. Foi um vizinho que me emprestou a passagem para o dia seguinte. E toda vez que eu pensava no velho ladrão, eu desejava ardentemente que ele fosse preso.

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  • Publicado em: 17/05/2017
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