A Garganta da Serpente

Adelaide Amorim

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domésticas

I

a roupa no varal entrega ao vento
a desbragada candura dos botões
e há uma canção de luz em andamento

II

além da mesa do almoço
apaziguado
o gato nos espia

na tarde mansamente inaugurada
reaparecem
as flores do futuro

: dentro de nós o vento se anuncia

III

o vento na janela subverte
mensageiro
o quarto de dormir
nesse bailado insurreto de cortinas

nos muros perfumados do jardim
vozes breves
em contraponto de intenções minúsculas

pensa por nós o vento
e imprecatada
a lava fria da lua nos contempla

varrido o chão da noite
o tempo recrudesce em nossa cama

IV

o pássaro
no mundo de suas grades
é ele mesmo quadrado
diminuto
afeito ao vôo curto

mas rumo ao céu
desfere a desatada fantasia
de seu canto


(Adelaide Amorim)


voltar última atualização: 26/08/2007
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