A Garganta da Serpente
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Fulgor psicológico em autor russo

Dostoievski gastou uma fortuna de palavras para escrever Os Irmãos Karamazov. Poderia ter feito economia? Perguntamos. Mas, não temos uma resposta. A obra é por demais complexa e envolve várias personagens. O que, por si, emite sinais para as mais variadas leituras.

Querem alguns leitores norte-americanos ver na obra o "constructo" democrático. Outros, menos afeitos a este tipo de re-construção do romance, querem ver nele exatamente o que já explicitamos e que Carlos Drummond de Andrade fixou na poesia com um mínimo de palavras:

"Mundo mundo vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução...".

Que sirvam estas palavras introdutórias de advertência para a compreensão da leitura que fizemos de um trecho da obra. Citemos Dostoievski:

"- Senhores - exclamou -, vejo que estou perdido. Mas ela? Falem-me sobre ela, eu lhes imploro, será que ela vai se perder comigo? Porque ela é inocente, ontem ela gritou fora de seu juízo que era 'a culpada por tudo'. Ela não tem culpa de nada, não tem culpa de nada!"

Trata-se de uma parte do segundo volume, lido em tradução do Sr.Paulo Bezerra, onde Mítia, o homem indisciplinado, diante dos juízes do Tribunal, discute com esses mesmos juízes a acusação de roubo e assassinato que lhe é imputada indevidamente. O que se segue é para quem já leu Fiodor Dostoievski. Vamos lá, e que não sejamos os defensores de uma leitura que se queira a única em perfeição. Porque tudo depende do ponto de vista de quem lê.

A mulher, em Os Irmãos Karamazov, aparece menos que os retratos masculinos traçados no livro. Mas, o modo como aparece é por demais insinuante de que ela foi bem compreendida pelo autor. Afinal, parece nos perguntar ele, o romancista: a quem pertence Grúchenka?

O fulgor psicológico imposto a qualquer leitura que se queira humana demasiadamente humana, é evidente desde o princípio da obra. Os caracteres retratados são os de mais variada sorte de elementos e pinturas de personalidades que se diversificam à medida que crescem e se desenvolvem, enquanto personagens. Não sabemos se na vida real vamos encontrar personalidades que se exponham tanto, com a fixação e, às vezes, um bom humor total para tratar de doidos. De gente cuja demência chega ao ponto de se auto-defender no Tribunal de uma acusação tão temível e arrogantemente feita com um ponto de base feita na evidência dos fatos. Isso o autor resolve.

O que ele deixa ao leitor é, para nós, uma pergunta não realizada por escrito, ao menos. Grúchenka parece uma desvairada, a vacilar entre pai e filho e a enciumar Mítia quando se envolve, não sem uma ponta de cinismo bastante feminino, com a noiva do próprio que é uma mulher da alta sociedade russa. A quem pertence Grúchenka, eis a questão, mais célere e mais importante, a nosso ver, que a questão principesca do "Ser ou não ser" que Shakespeare, o gênio da literatura inglesa, um dia colocou no prato de leitura para nós.

Hoje, que podemos ler, também em dois volumosos volumes, Os Donos do Poder de Raymundo Faoro, o advogado gaúcho, sabemos que Hamlet está nas mãos de seu próprio reino; Grúchenka, pelo contrário, é uma rainha que não tem e parece não querer ter uma coroa que não a do amor. Questão de ordem e de polêmica. Pois os orientais, se formos a Jerusalém, nos deram tanto o amor cristão, e se formos nas Arábias, nos deram também a noção de amor físico. Eis subliminarmente citadas as seguintes obras: Bíblia Sagrada e As Mil e Uma Noites. Mas, não mergulhemos nesta discussão sobre herança cultural entre uma noção religiosa que deve ser levada a sério e uma proposta um pouco nojenta de exibição do poder do macho sobre a fêmea, mundo este que Sheherazade destrói com sedução. Fiquemos com o pequeno mundo de Grúchenka, porque ela nos permite uma intimidade maior, no que se trata de assuntos literários.

Para ser breve e encerrar este pequeno minueto de leitura, digamos que Grúchenka não chega a pertencer a ninguém. Está permanentemente em busca de a quem mereça possuí-la. É uma potranca que não se doma, tudo o que ela faz é domar e dominar, como um verdadeiro tipo ideal de personagem a mostrar ao mundo o fulgor da inteiridade psicológica de um autor epilético que já foi acusado pela crítica de ter escrito o que escreveu por ter vontade, na vida real, de assassinar o pai. Conhecendo o pouco que conhecemos sobre a vida de Fiodor Dostoievski, suas fugas para Paris com a terceira ou segunda amante, a ordem pouco importa, achamos que ele não era capaz de escrever um romance desejando outra coisa senão expor o seu amor por Grúchenca e por outra personagem cujo nome nos escapa quando escrevemos, e que é a senhora da alta sociedade russa.

Para quem conhece a obra Os Irmãos Karamazov, deixo uma péssima impressão. A de que me falta muito para entender a ficção de que tratei. O que talvez não seja uma grande verdade. Digo apenas sobre Grúchenka: a mulher que não pertence. E quem possui uma mulher? Mulher é propriedade ou companheira? Mítia Karamazov está no ponto em que o citei, gritando pelo amor de uma mulher assim como, cita Caetano Veloso, um bezerro grita por sua mãe. É questão apenas de dizer que mulher, ao menos, em português, francês e inglês... ...mulher, femme, woman..., está no gênero feminino. E é mãe do bezerro que vos convida a ler OS IRMÃOS KARAMAZOV. Assim como a mulher é a mãe desde o nascimento, portadora do útero que há de gerar sempre outros seres humanos.


Os Irmãos Karamazov
Vol.1 (1º e 2º Partes)
Autor: Fiodor Dostoievski
Editora Presença
392 páginas
2002

Os Irmãos Karamazov
Vol.2 (3º e 4º Partes)
Autor: Fiodor Dostoievski
Editora Presença
528 páginas
2002

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