A Garganta da Serpente
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(Des)encontro com deus

Fernando Sabino escreve "O ENCONTRO MARCADO", romance que marcou toda uma geração pós-segunda guerra mundial, numa dimensão visivelmente humana, mas de uma postura rígida no que diz respeito à presença-ausência de Deus no livro. Assim como quem quer retratar a mesma problemática na vida real. Em nenhum momento é escrita a palavra Deus, ou é mencionada a palavra divino ou coisa que o valha, não pelo menos de forma gratuita. O romance narra as peripécias de um homem desde a mais tenra infância até o momento fatal de prestar contas, sem que no final o personagem morra. Prestar contas, como, quando, onde e a quem? É o que veremos.

Aparentemente a superfluidade da narrativa aflora à flor da pele. O personagem central é masculino. Está todo preenchido de vida e de necessidades fisiológicas que vai satisfazendo à medida que se desenvolve como personalidade. Sua opção sexual é definida já nos primeiros anos da adolescência, quando da detecção de que é capaz de expelir sêmen, praticamente um valor da vida adulta. A marca de origem deste ser é definida desde o início. É como se o escritor quisesse dizer que ele, o herói, tinha origens na adorável classe média. Adorável por quê? Porque é a única classe capaz de se mobilizar sob as elites e de conviver ao mesmo tempo com o povo. Aqui penso no conceito aristotélico de meio-termo aplicado às relações sociais. Mas, deixemos a filosofia para outra hora.

O aprofundamento da exposição das misérias do ser humano no pós-segunda guerra se dá numa espécie de plano mítico-quase-real. O qual seja, o relacionamento de um homem de classe média com a elite de então. De que maneira isso se dá? Pela ousadia e pela opção de casamento com uma moça bem-nascida. Não se confunda aqui realidade com ficção. Pois, toda moça é bem-nascida, desde que sua origem primeira é de pai e mãe. A ficção de Fernando Sabino, nos dá como esposa do personagem a digníssima filha de Fulano Representante de Algo na chamada boa sociedade. Que como todas as classes sociais tem as suas mazelas e as mesmas misérias de sofrimento humano. Aqui, entra a capacidade do autor de antecipar no plano romanesco a esperada, por parte dele o romancista, a grande reconciliação social. Coisa que em depoimento a Antônio César Drummond Amorim, ele acreditava possível (ver SUPLEMENTO LITERÁRIO DE MINAS GERAIS - 2010). Este assunto, esta discussão não pertence de todo a este artigo. O caso é que o personagem invade um baile da alta camada social e a seguir conquista, por bem e com bons modos, a mulher que julga amar.

A vida boêmia que leva, como uma passagem altamente simbólica do que há nele de ceticismo e de angústia existencial ao mesmo tempo, surge até o momento em que numa de suas farras pega a caveira que podia ter sido a utilizada por Hamlet, se Hamlet vivo fosse, e brinca vadiamente com a frase "SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO'. Mas dizíamos, a vida boêmia que o herói leva, inclusive depois de casado, faz com que o casamento vá por água abaixo, por desfastio da mulher, que cansada opta pelo divórcio. O nosso personagem é pretensamente um intelectual. Lê muito, discute muito, talvez pretenda escrever. Aqui chegamos ao ponto, o romance termina com ele se apresentando a um velho amigo que se tornou religioso profissional e que neste momento nega o lembrar-se dele.

É este o momento decisivo. Mas, depois do casamento destruído o herói se envolve com uma jovem e a leva a mesa médica do aborto clandestino. O padre, no caso, é um seriíssimo representante de Cristo. O aborto, questão urgente nos dias de hoje onde já a Igreja debate publicamente o assunto, sem se adiantar às decisões do Estado, é naquele instante do livro (lembrem-se: o pós-guerra mundial) a negação da vida. A Igreja condena(va). Não que não sejamos católicos, mas estamos lidando com a simbólica do romance. Esse encontro com o religioso a negar em sua memória a presença do herói rebelde, coloca o romance de Fernando Sabino na atualidade. Já estamos no III Milênio, com todos os avanços da ciência, a discutir qual o primado do aborto. Merece releitura, o romance de Fernando Sabino.


O Encontro Marcado
Autor: Fernando Sabino
Editora Record
368 páginas
1ª edição: 1956

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