A Garganta da Serpente
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Memorial do Inferno no Jardim do Éden Moreno-Tropical do Escritor Valdeck Almeida de Jesus nosso habitante

"Não é de todo infeliz aquele que pode
contar a si mesmo a sua história..
."
Maria Zambrano

A vida de cada um, cada ser, é a cruz de cada um. Páginas abertas de lágrimas e eventuais conquistas. A cruz de cada um, de cada ser-ente, está inserida na vida de cada um. Vidas são livros. O inferno são os outros, diria Jean-Paul Sartre. Cada um deve saber o que faz de si, depois do que a vida paulatinamente lhe der de lágrimas, espadas, toleimas, cruzes e enfrentações. "A dor da gente/Não sai no jornal" canta Paulinho a Viola. Pois o belo livro "Memorial do Inferno", da Giz Editorial (SP), 190 páginas, Edição 2007, escrito pelo funcionário público e escritor Vandeck Almeida de Jesus, ainda tem, paradoxalmente ao nome, um irônico subtítulo: "A Saga da Familia Almeida no Jardim do Éden". Um romance (?) recheado de memórias revisitadas, histórias de caminhaduras alegres-tristes, amargas-pungentes, quando uma mãe - e sempre adorei as mães dos romances (a última do romance Dois Irmãos de Milton Hattoum é genial) - brilha, assoma-se mesmo na sua limitação, e, ainda, para mim, algumas das acontecências de narrativas tendo muito a ver com a minha própria história de luta, e origem humilde, de humilhações, sofrências, e, por conseguinte, determinação e lições de vida. Na Bahia, o jardim do éden "moreno-tropical" das famiglias estilo ACM e outros mandos (e desmandos), contrastes sociais, mais os registros de dor, e a nudez do nosso periférico e selvagem capitalhordismo americanalhado e, por outro lado, o humano brado retumbante do escritor contra tudo e contra todos, com páginas de horror e lágrimas, contadas na lata, com ternura e simplicidade. Sensibilidade a flor da pele, rasgando memórias cruas, nuas, plangentes. Saí da leitura como se limado pelo serrote das contações que vão vazando as lágrimas letrais do autor. "O certo é para sempre/Na dúvida, volte ao ventre/Nunca saia da mãe/Pra não chorar depois", disse TAO (in, TAO, o Homem a Caminho do Céu, Lao Tse). A mãe do autor (enormemente mãe no romance/memorial), não era uma bruxa, mas, certamente que espetacularmente um anjo, mas no limbo telúrico de nossas prosopopéias e refinamentos existenciais em inferior plano do mundo de nosotros. Triste Bahia, diria (cantaria) o Veloso Caetano. Depois de vencer a miséria, a dor, a fome, o vencedor dilata o tempo de viver ao escrever sua história ? Uma viagem para dentro do que deveria ser um éden que, dizem, em se plantado tudo dá (carta de Pero Vaz Caminha/1500), mas, na verdade há uma elite desaforada, um descompromisso do estado com os seus carentes, um neoliberalismo câncer com tufos de espertos na sociedade podre. Meu lado marxista-teórico (socialista democrático e anarquista técnico) atiçou um sonho por um humanismo de resultados. Dói viver. Dói saber. Dói ler sobre heróis anônimos que, atrelados à carroça dos séculos, fazem a vida acontecer, apesar de tudo, pois a justiça falha, ainda não temos uma democracia racial.

O autor, como se contando a história na sua frente, na sua cara, ao seu jeito peculiar, aos poucos, homeopaticamente mas com tantas peculiaridades, diz dos campos de plantações a engenhos, da periferia sociedade anônima a paragens brasileirinhas, e assim vai despojando tudo que sofreu, tudo o que se passou; a sua saga dentro dos tantos brasis gerais, abandonado pelos podres poderes, até o inicio de uma nova esperança como a de agora no país, que é um operário que passou fome, nordestino, e que no poder federal resgata o sonho do sofrido povo, um metalúrgico-presidente, o Lula que também tem sua história de dor e determinação, até o apogeu que nos honra, como a minha história e a de milhões de descamisados, excluídos sociais, sem terra, sem teto, sem pão, sem amor, os quase sem pátria da colonização exploradora, da libertação de escravo que libertou mas não os indenizou (indenizou os patrões escravocratas filhotes da elite dominante) depois a falta de uma reforma agrária (que era coisa de comunista segundo a visão bocó dos incompetentes militares ditadores), depois passando pela insensibilidade de um poliglota presidente-sociólogo que se aliou a antros neoliberais do demo, daí um livro do peso como "Memorial do Inferno" ser até um importante documento datado, pari passu, a contar com detalhes de como rolam as coisas nos cantos do país continental, e como é extremamente muito difícil sair na ponta da pirâmide, e ainda poder, vitorioso mas com seqüelas, narrar, contar; a lágrima, a dor. E um povo, uma familia, uma região; de um lugar, de um tempo, das injustiças pelos campos e cidades...a carne sentida, a alma sentida, a narração sentida...

Escritor por temáticas evolutivas de percurso (da vida do autor), o livro faz rir, faz chorar, assusta; ficamos vermelhos (raiva, vergonha, horror), leva e traz a sua pulsação letral, fere a nossa sensibilidade a partir de uma realidade pura (os brasis dentro do Brasil), a dura realidade; o sagrado coração da terra está ali, numa edição com placas e capturas de tristices, tocando a sua alma, ferindo o seu aguçado espírito por coisas que retratam amarguras, impunidades, injustiças, medos, fugas, sonhos. Ai de ti Jequíe! O Pai (quase sempre ausente), a Mãe, sempre força e luz, residências, formação escolar, religiosa, a roça, a represa, trabalhos, inundações, militância política, viagens - o colorido big brother brasil real é outra coisa (o espelho pode ser uma navalha) - os aflitos, os rios, as leituras como fugas, tudo um roteiro para desafiar a insanidade dos homens, peitar irrazões, fazer com que o bendito herói que cada um tem e traz consigo, aflore, brilhe, deixe lastro na passagem, ou vire marginal, fique louco, caia fora da estrada, pague seu preço - a barra pesada de viver, baby! - pois, ao contrário do que diz a balada antiga, o mundo não pára pra gente descer. Castro Alves já dizia: "A luta é renhida/Viver é lutar." E todo pensador que leu Karl Marx, ou todo sentidor que lê a vida das riquezas injustas, dos lucros impunes...das propriedades roubos, sabe o que há por trás da verdadeira história oficial desse país. Cazuza cantava contra a infame elite dominante: "A tua piscina está cheia de ratos/A tua memória não corresponde aos fatos(...)/O tempo não pára..."

Poucos sobreviveriam lúcidos e inteiros(e poetas!), com sensibilidade inteira e viçada, passando o que passou a Familia Almeida de Jesus, sob a tutela da Mãe do autor e depois dele mesmo com seus erros e acertos, com seus sagraciais altos e baixos, com tantos sonhos e pirações, nas idas e vindas, nas depressões, nas causas frustradas e desesperos orquestrados, pagando seus micos, pagando seus ritos, pagando com suor e sangue. Fechando seus ciclos, a alma sendo testada entre os escorpiões do percurso, as orientações líricas e as escritas-derramas como testemunhos-depoimentos, contações de coisas duras de engolir, muito mais de sabê-las acontecidas. Como se uma espécie de refinação do Eu de si, que mal cabia em si, atrás de uma luz depois do fundo do poço, muito apem do fim do túnel. Para grandes heróis, grandes desafios? Essa é a obra. Esse é o Vandeck Almeida de Jesus. A história daria um filme com final feliz. Que final feliz é a nossa cota de angustia e a nossa cota de dor que nunca daremos aos brancos, nós, mestiços, ainda assim, dos filhos deste solo, filhos da pátria? Diz o autor na página de apresentação: "...Esta familia não mediu esforços para superar as muitas barreiras que lhe foram impostas, vencendo os mais diversos obstáculos(...). Sem perder a fé no futuro, sempre incerto e duvidoso, a Familia Almeida conseguiu, com sua luta, atingir os objetivos almejados e marcar seu lugar ao sol" (Pg. 13). Fibra e valentia. Honra e glória. Agonia e depois o sucesso. Lições? Vandeck Almeida de Jesus, filho de Paula Almeida de Jesus e de João Alexandre de Jesus, que era um João sem terra, nesse continental afrobrasilis, agora é um vencedor, autor de livros, dando seu depoimento. A dolorosa e angustiante compreensão intima dos acontecimentos, passa pela qualidade do livro de Vandeck, feito também um Memorial de Lágrimas. Idel Becker aponta a leitura e estudo do passado como uma releitura da história que nos obrigue a algumas atitudes: intenções morais, indicação de rumos para a conduta humana, diagnóstico e terapêutica. O autor cita a frase (em hebraico) de Cristo na Cruz: "Eli! Eli! Lama Sabactâni (Deus Meu! Deus Meu! Por que me Desamparaste?) narrado por São Mateus nos novos evangelhos. Talvez os jesuscristinhos desses brasis gerais dentro de um outro o Brasil S/A (que só é rico para os ricos, não é rixo para os pobres) precisem de arados letrais para plantarem suas retóricas, suas narrativas, seus documentos literários de vida e brilho. De sangue e luz. De consciência do dever cumprido, apesar de tudo. Com atributos de fé, de coragem, de ousadia e de uma vontade de mudar para fazer sentido o verbo viver, dar sustância na sua significância plena nesse nosso plano terrestre.

Não é qualquer dia que a gente lê por inteiro e com clara tristeza - a história é remorso, cantou Drumond - a vida-livro de um vencedor que pagou sua pena, até literalmente mesmo que seja, tirou de letra. Adorei ler o Memorial do Inferno escrito por um ser humano que está em plena forma e luz. Afinal, alguém de entre os fracos e oprimidos, tem que sobreviver para contar a verdadeira história do povo sofrido.Vandeck Almeida de Jesus, para finalizar, em sua homenagem, cito seu conterrâneo Caetano Veloso, meu ídolo: "Respeito muito suas lágrimas".


Memorial do Inferno, A Saga da Familia Almeida no Jardim do Éden
Autor: Valdeck Almeida de Jesus
Editora GIZ Editorial
2007

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