A Garganta da Serpente
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Historiografia para revelar a sergipanidade
- Um livro de Itamar Freitas -

Escrever sobre o passado ou analisar a biblioteca são atos distintos e requer, portanto, cuidados e especialidades distintas. Um pauta-se no registro da experiência vivida (a História), o outro no exame do conteúdo e percepção dos autores. Grosso modo, assim podemos discernir História e Historiografia. Historiografia Sergipana é o título da recente contribuição de Itamar Freitas a exegese dos estudos sobre o passado sergipano. Co-autor do Dicionário da Província de Sergipe (1999), autor da Escrita da História na Casa de Sergipe (2002) e das Histórias do ensino de História no Brasil (2006), Itamar Freitas é doutor em História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e atua como professor efetivo do Departamento de Educação da Universidade Federal de Sergipe.

Historiografia Sergipana reúne artigos, relatos de experiência e resenhas, gestados na simbiose da prática docente e pesquisas realizadas no período de 2000 a 2005. Seus três capítulos desvelam o acervo capital da História de Sergipe, descrevem experiências docentes e resenham a bibliografia historiográfica sergipana dos últimos dois séculos. Nas palavras do seu autor, "a coletânea aborda a historiografia elaborada nos limites de uma agência historiadora (Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe), a obra de historiadores (clássicos do século XIX, noviços universitários, memorialistas), um gênero (historiografia didática), algumas dimensões da experiência local (o econômico, político, social e cultural), um recorte cronológico (a historiografia do século XIX), um recorte espacial (Aracaju) e o trabalho heurístico (busca, tratamento e conservação de fontes documentais)". (p. 18)

Na apresentação, a professora Margarida Dias de Oliveira justifica os méritos do historiador Itamar Freitas e dos seus predicados. Este rubrica uma introdução à História da Historiografia no Brasil esclarecendo aos leitores sua criação, trajetória e importância à compreensão da identidade regional. No primeiro capítulo, sínteses sobre a historiografia sergipana, o autor explana acerca da produção do século XIX e XX, ora considerando a cronologia, ora segmentando-a em tópicos, num confronto dialógico com trabalho seminal de José Calazans Brandão da Silva (Introdução ao estudo da historiografia sergipana, 1973). Tratando dos livros didáticos de História de Sergipe, fala do esforço pioneiro de Laudelino Freire (1898) e passa a discutir as variáveis dos manuais educacionais do século XX, chegando a problematizar o papel do instrumento didático na formação do sergipano e o perfil do seu autor.

Sobre o ofício do historiador em Sergipe é o título do segundo capítulo. Respectivamente, os temas explorados tratam: a) dos indicadores de produção acadêmica a partir da legitimação da disciplina Prática de Pesquisa no final do século passado; b) dos critérios de classificação e chancela das fontes históricas para reconstituição do passado sergipano, c) da importância que a leitura de jornais assume para os historiadores que visam desembaciar o cotidiano da sociedade de antanho e d) das experiências do Departamento de História da UFS com os projetos de fontes orais.

No último capitulo, Historiografia em resenha, o autor arrola 48 artigos com os rigores de referência e escrita aceites no meio acadêmico. Publicadas entre os anos de 2000 e 2004, no Jornal de Sergipe, Sergipe em foco e Informe UFS, as resenhas crítico-informativas mapeiam os principais títulos produzidos sobre Sergipe. Uma outra bússola oferecida aos leitores da obra comentada é o índice de assuntos, apenso de fatos, personagens e autores citados.

Como toda obra é passível de erro, ouso apontar correções. Em primeiro lugar, Manoel dos Passos não era "cristovense" (p. 148), embora tenha residido durante 40 anos na ex-capital, São Cristóvão; como dizia "era cotinguibano" já que nascera na Vila de Nossa Senhora do Socorro em 29/08/1859. (GUARANÁ, 1925, p. 216). Em segundo, o século da invenção de Sergipe não é o século XX (p. 259), a invenção de Sergipe como categoria político-social ocorreu após a emancipação da Bahia em 1820, portanto no século XIX, como se acha fundamentado no primeiro capítulo.

Com a publicação de Historiografia Sergipana, o professor Dr. Itamar Freitas socializa conhecimento indispensável à formação dos pesquisadores da experiência e produção historiográfica sergipana. O livro tem o patrocínio da Editora da Universidade Federal de Sergipe e será referência destacada nos cursos e produções do gênero. A freqüência dos adjetivos sergipense, sergipanófilo, sergipanismo e sergipanidade indicam a importância que ele assumirá doravante nos estudos a respeito da identidade cultural do nosso Estado.


Historiografia Sergipana
Autor: Itamar Freitas
Editora UFS

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