A Garganta da Serpente
Resenhas dos Répteis releases, resenhas e críticas
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Sem saída
- Elite da Tropa, um livro de André Batista, Rodrigo Pimentel e Luís Eduardo Soares -

"BRASÍLIA (Reuters) - Quase meio milhão de brasileiros foram assassinados nos últimos dez anos, (...) segundo estudo o Mapa da Violência nos Municípios Brasileiros, divulgado na terça-feira. Entre 1996 e 2006, cerca de 465 mil pessoas foram assassinadas no país, a maioria a tiros, de acordo com o levantamento realizado por duas ONGs e pelo governo federal."


Acabo de ler ELITE DA TROPA. Desta vez, fiz a coisa certa. Primeiro, assisti ao filme (Tropa de Elite) para depois ler o livro. Digo que fiz a coisa certa porque, se fizesse o contrário, certamente não gostaria do filme e o acharia fraco e inconsistente.

Nunca, aliás, em minha vida, assisti a um filme baseado em um livro que fosse melhor do que o livro. E isso acontece não por incompetência do diretor do filme, como costumam afirmar alguns críticos. Isso ocorre porque o livro é a forma de comunicação mais perfeita inventada pelo homem e nenhuma outra irá superá-lo em riqueza e profundidade. Aliás, quanto mais a humanidade evolui, mais os novos meios de comunicação e de contação de histórias inventados ou aperfeiçoados pelo homem revelam sua finalidade e característica primordiais e confessas que são incutir, através de uma enxurrada de informações expressas através de frases objetivas e textos curtos, superficialidades nas mentes do imenso exército de pessoas incautas e incultas que habita o mundo contemporâneo.

Voltando ao caso específico do filme TROPA DE ELITE e do livro ELITE DA TROPA, é importante dizer que, além do filme abordar apenas de forma superficial a questão da violência urbana, ele trata apenas de uma parte do livro. O livro Elite da Tropa divide-se em três partes, Diário da Guerra, Dois Anos Depois: A Cidade Beija a Lona e o Epílogo, que fecha com chave de ouro o que é revelado nas duas primeiras partes. O filme Tropa de Elite aborda praticamente apenas o Diário da Guerra.

Dois Anos Depois: A Cidade Beija a Lona daria outro filme, tão ou mais interessante do que o filme do Padilha, que tanta celeuma provocou, mesmo deixando de fora o debate mais importante, que é a força e o poder do crime organizado, que se encontra infiltrado nos governos, nas polícias, na justiça, enfim, em todos os lugares da nossa sociedade onde lhe interessa estar.

Quem lê o livro ELITE DA TROPA pode até ficar pasmo, perguntando-se como os bandidos denunciados no mesmo permitiram sua publicação. Entretanto, se nos lembrarmos que vivemos num país de analfabetos completos e funcionais e que o livro, infelizmente, não faz parte da vida da imensa maioria do nosso povo, entenderemos porque tais escritos foram publicados. Já nos últimos anos da ditadura militar, alguém chegou a dizer que livros não se constituíam em perigo para o regime, já que só uma minoria de intelectuais tinha acesso a eles em nosso país. E, de lá para cá, a situação não mudou muito.

Entretanto, quem lê ELITE DA TROPA, podem ter certeza, entende com muito mais facilidade certos fatos da história recente do nosso país. Entende melhor, por exemplo, os distúrbios provocados recentemente por bandidos no Rio e em São Paulo, quando a população de ambas as cidades ficou a mercê de ataques comandados de dentro das cadeias. Entende melhor as prováveis razões do assassinato do comandante do policiamento da Zona Norte de São Paulo, coronel José Hermínio Rodrigues. Entende também a jogada magistral de seus assassinos, chacinando, numa demonstração de força e poder, no dia seguinte à sua morte, sete pessoas no Jardim São Luiz, na região do Tremembé.

Quem lê com atenção o livro Elite da Tropa entende com mais clareza o que quis dizer com suas declarações o bandido Marcola, em entrevista a um repórter do jornal "O Globo":

"(...) Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados, há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivada na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um "Monstro Alien" escondido nas brechas das cidades. (...) Estamos diante de uma espécie de "Pós-Miséria". A "Pós-Miséria" gera uma nova cultura assassina, ajudada pelas tecnologias, satélites, celulares, internet, armas modernas. (...) (grana) A gente hoje tem. Você acha que quem tem quatrocentos milhões de dólares como o "Beira-Mar" não manda? (...) Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma "empresa moderna", rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no "microondas". (...) Vocês são um Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de "três oitão". Nós estamos sempre no ataque. Vocês na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população da favela por medo ou por amor. Vocês são odiados. (...) (Diante da pergunta do repórter: "O que devemos fazer?") Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os "Barões do Pó". Tem deputado, tem senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e de armas (...)."

Diante desse quadro, ainda tem gente papagueando por aí o chavão favorito dos fabricantes de armas, que diz que se armando o cidadão honesto vai poder defender-se dos criminosos que governam este país. Durma-se com um barulho desses...


Elite da Tropa
Autor: André Batista, Rodrigo Pimentel, Luís Eduardo Soares
Editora Objetiva
312 páginas
2006

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