A Garganta da Serpente
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Conversa Rimada – um livro de poesias peculiar
- Um livro de Luhli e Felipe Cerquize nosso habitante -

Em 2004, Luhli e Felipe Cerquize conheceram-se na M-Musica, lista da Yahoogrupos, cujo foco principal é a música, mas por onde os versos também circulam, como complemento de melodias ou como simples poesias soltas. Entre arremessos de versos ocasionais, iniciaram-se as respostas de um para o outro e essa dinâmica crescente e incontrolável gerou um grande número de conversações poéticas, que se estenderam de 2004 a 2006, levando a uma situação contagiante dentro do grupo. Foi nesse clima que surgiu a idéia de se transformar essa relação espontânea num livro. A seguir, trechos do prefácio escrito pela poetisa Etel Frota, que é a caracterização exata do que vem a ser este trabalho:

O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente 
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente.
(Fernando Pessoa)

Há, na M-Musica, vários escritores que certamente têm se valido dessa convivência privilegiada para criar e/ou enriquecer seus textos. O que torna o Conversa Rimada único, dentro desse continente de fervilhante criação, é o fato de ter sido inteira e dialogicamente escrito – linha após linha, poema após poema, hora após hora, dia após dia – sob os olhares da M-Musica. Um puro sangue, do qual todos nós nos sentimos um tanto padrinhos, um tanto parteiros.

De fato, a escrita vertiginosa de Luhli e Felipe magnetizou corações e mentes, por meses a fio. Duelo de gigantes. Lances de esgrima. Toma lá:  

... então calarei
quando calo, não sou
se consinto, serei.. 

Dá cá:. 

...no teu ar nenhum
respiro
e na ausência da tua sombra
transpiro
de tanto ser alguém
debruçada em ninguém
perco o contorno também.
Sabes a que me refiro? 

...tudo é mesmo igarapé
com jeito de rio-mar
agüenta a força da maré
e chega mais, meu coração                                                            

 ...gosto dos igarapés
que correm nas tuas veias
e se alargam nas marés
retidas por tuas teias 

No momento em que, tendo aceito o desafio de tentar escrever esta abertura, comecei a releitura dos poemas, com os originais já organizados para a publicação, eu já tinha lhes presenciado o nascimento, conhecia-lhes os autores, sua visceralidade e alta voltagem emocional. Cometi, então, o equívoco de supor que desta vez meu coraçãozinho estaria a salvo das calhas de roda.

Não poderia ter me enganado mais redondamente - na vertigem da interlocução, na meta-gestalt dos blocos temáticos, Felipe e Luhli escreveram uma história de paixão, morte e ressurreição, e nessa circularidade sem saída acabaram por arrancar com a mão o coração deles próprios, e expor ao nosso olhar fascinado, alternadamente, ora o músculo pulsando, ora a ferida sangrando, ora o motivo do crime. É tudo morno, acontecendo ali, na hora. Tão completamente fingidas dores... Mesmo quando a ironia nos faz sorrir, mesmo nos momentos de diástole, subjazem e sobrevêm as sístoles, tremendas e arrebatadoras. 

Foi  assim taquicárdica, de olhos arregalados e úmidos, que prossegui na minha segunda leitura dessa poesia. Uma inesperada aventura radical. Lembrando-me a todo instante de uma frase de Marion Woodman, uma analista junguiana canadense – 

“...o que se passou entre ela e o seu corpo, entre ela e seu deus e sua deusa, é um mistério que não pode e não deve ser traduzido em palavras. O mistério é sagrado. A alma subsiste. O resto é silêncio...” 

O mistério é sagrado, a alma-nunca-pequena subsiste, e o resto, que pode ser silêncio, também pode ser poesia, ouso emendar (que me perdoe Mrs. Woodman). Ou o que se passa, evento e resto, é a poesia, ela mesma. 

Pois há rachaduras e frestas nessa arquitetura. O sentido se constrói a partir de não-ditos, de mal-ditos, de inter-ditos. É poesia para se ler com olhos de voyeur. Através das fendas, então, é que se espia esses atores de um tempo e de uma cidade, um Rio de Janeiro ora metafórico, ora nu e cru. 

Mar, morro e abismo
Sinceridade e cinismo
Entre a altivez e o autismo

Grita a baixada
um carnaval de vingança
dança sujo, torpe, mas dança
canta vulgar, estridente, mas canta
e faz que vive
na podridão que se alevanta

E é em plena urbe, entre memórias, manchetes, metáforas e análises, que se dá o inevitável encontro: 

...depois do corre-corre
estou à toa nessa praça
entre cinemas carros vento e garoa
A noite é luz e lixo
até já joguei no bicho
madames chegam pro municipal
já toca o Bola Preta
a passeata deu em nada
te espero
coração em disparada

...sossegar o facho pra poder calar
diante dos meus ecos
que suplicam por você. 

Prontos o cenário e os atores, a fêmea plural – quase uma kamikaze - e seu outro - o singular masculino se debatendo em seu labirinto – acabam por se dar à epifania da paixão, fugaz completude. 

Chegar sem bulir com o vento (...)
intimizar pássaros compartilhar flores
ordenhar pedras construir horizontes
(...)mergulhar no fundo abraçar o mundo
pra poder dizer no espelho de teu olho
agora sou tua

E é aí que, abaixo da epiderme do texto,  muito mais do que da mera questão genérica, masculino & feminino, do que realmente se está falando é do eterno,  humano e inconciliável embate entre paixão e razão, liberdade e convenção, movimento e estagnação, verdade e mentira, embriaguez e secura.

...Chuto a porta
porque a Inês é morta
Escancaro a janela
e atiro no sentinela 

...somos a mesma sede do peixe
a mesma mágoa da água
o que seria de mim sem ti
meu avesso... 

As imagens, magníficos paradoxos. Ícaro e Dédalo, sempre, o tempo todo.

gaivotas vírgulas de luz na densidade do lodo

A consumição na paixão, ato infinito

 ...o relance soa eternidade
porque o encontro existe
e se faz imenso... 

...nas papilas o gosto de língua,
nos olhos, espelha-se a menina
suas garras na minha retina... 

Doze estações do martírio. A dor fingida em estado bruto 

Acende o escuro, apaga a luz,
prepara as madeiras da cruz.
Levanta o corpo para o sacrifício
de roer os ossos do teu próprio ofício. 

Os três dias do luto

 ...quando a tristeza vem
assim de enxurrada
a dor é água
e a saudade é trampolim.
Ao menos diz que valeu...

E o tempo, esse melhor remédio, que enfim comparece, sempre dono da possível síntese. A ressurreição, e o testemunho dos panos largados no fundo da gruta – arte, herança e descendência. Consagração do vivido e do morrido, e o legado da eucaristia.

Nossos versos são os nossos frutos,
os poemas são o nosso chão
onde os frutos que caem se vão
como filhos de nossos minutos 

Não há  imunidade possível ao jorro desses versos. Autopsicografando-se, Luhli e Felipe Cerquize heteropsicografam-nos, lançando à vertigem dos trilhos, sem dó nem piedade, o trenzinho de corda da nossa emoção.

Largar de vez desse cais
de preguiça e covardia
arriscar a sintonia
com chuvas e vendavais
apostar no horizonte
e ir em frente
para um beijo diferente
polpa quente e língua ágil
que me faça lembrar do medo
do naufrágio

Fica o aviso aos embarcantes: o barco é bêbado, o comboio pode descarrilar a qualquer momento. Não há seguro ou garantia, perante uma poesia que finge tão completamente.


Conversa Rimada
Autores: Luhli e Felipe Cerquize nosso habitante
Editora: Litteris Editora

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