A Garganta da Serpente
Resenhas dos Répteis releases, resenhas e críticas
Texto de:

Andreia Brites

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Fragmentos, Livro I
- Um livro de Ana de Sousa nosso habitante -

A capa preta não é engano. São "Fragmentos, Livro I", de Ana de Sousa, editado pela Intensidez. Pouco se sabe do que se faz fora dos circuitos editoriais que partem das grandes cidades ou do meio académico. Intensidez é uma recente editora do Sul e este é o primeiro livro da autora.

Ana de Sousa oferece-nos trezentos e sessenta e cinco poemas e uma epígrafe. Os seus fragmentos são na maioria longos e podemos lê-los como correspondendo aos dias do ano. Não que esta seja uma poesia diarística. São poucas as marcas do tempo e espaço que ligam o discurso ao exterior. "Cheguei à altura das cerejas e não ousaria tê-lo pensado./ É por isso que hoje dediquei o dia à melancolia de não saber/ porque não me regressa aquela que de mim permanece ausente." O sujeito poético dialoga consigo próprio e com o outro, o "tu" que influencia o seu estado de espírito. Elementos como o vento, as folhas das árvores, o mar, as planícies, as aves são exemplos da vida natural que compõe o jogo metafórico com léxicos sobre o tempo e a escrita, ou emoções como o medo, a lucidez ou a tristeza.

Estes fragmentos não vêm da tradição oriental do Haiku, o fragmento resulta da impossibilidade de fixar a realidade e a vida, de orientar a memória. A relação do sujeito com o mundo provoca dor, uma dor existencial. Todos os Dias.

(Andreia Brites in Revista "Os meus livros" - Secção "Crítica - Poesia", edição nº.41 - Julho'06)


Fragmentos, Livro I
Autora: Ana de Sousa nosso habitante
Editora Intensidez
407 páginas
Ano: 2006

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