A Garganta da Serpente
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Mania de infância
- Um livro de Rodrigo Fresán -

O novo romance de Rodrigo Fresán explora a vida do autor de Peter Pan na sua essência e em um encantador reflexo do mundo real.

"Quando você fecha a janela de um livro, abre a janela de uma vida "

No decorrer do século XX alguns escritores construíram verdadeiras narrativas assentadas nas estações do ano. Assim foi com a obra de Em Forster e um forte inverno, o feliz verão de Jane Austen, o longo e sombrio outono de Virginia Woolf e agora, porventura, a eterna primavera de J.M Barrie. O seu Peter Pan, a história do "garoto que não queria crescer", a famosa narrativas inspirada na família dos Llewelyn Davies, cujos filhos serviram como base aos personagens do livro de escritor escocês Barrie. O referido personagem se divisa a Michael Llewelyn Davies, que passou até de modelo para uma estátua de Peter Pan nos célebres jardins de Kensington.

A partir desses fatos, o argentino Rodrigo Fresán constrói um romance que mescla fatos reais e fictícios,reflete sobre o tempo e a fina fronteira que separa a vida da morte em um denso conglomerado que não é outra coisa que o mundo.

A história é narrada pelo personagem Peter Hook, escritor inglês que nutre uma obsessão quase doentia pela biografia do criador de Peter Pan. Em uma única noite, em um longo monologo de mais de quinhentas páginas, Hook conta, a um interlocutor desconhecido chamado Keiro Kai, as luzes e as sombras de sua própria vida e a de J.M Barrie, além do menino que recusou a crescer como pano de fundo, a cidade de Londres, uma Londres vitoriana de final do século XIX e principio do século XX, que Fresán alterna com os Swinging Sixties ( os anos 60) e a época atual.

Barrie é o reflexo do espelho que Fresán traça no protagonista, Hook um escritor de livros infantis de sucesso - os livros que trazem seu personagem Jim Yang, um garoto oriental que tem uma bicicleta que pode viajar pelo tempo, traduzido e vendido para todo o mundo, num fenômeno parecido com Harry Potter de JK.Rowling. Hook é o reflexo opaco e imperfeito de Barrie. Um junção de dois personagens se para o autor de Peter Pan nada de feliz e interessante acontece depois dos doze anos, para Hook a infância é um palácio cheio de portas que conduzem a recordações e segredo dolorosos, algo que sempre voltamos um ou outra vez, contudo, dele nunca conseguiu sair.

Dois romances em um, duas vidas que se assemelham em alguns pontos, mas divergem em outros. Com a mesma destreza de Borges, Fresán faz seu mundo pessoal tão crível que chega a substituir àquele que inspirou. Através de suas páginas, o Jardins de Kensington traz figuras essências da cultura inglesa, alternando em três tempos diferentes: o tempo que é contado nos dias de hoje, as memórias do narrador em sua infância nos anos 60 e nos anos vitorianos.

Situações diversas são lembradas, como as hilárias aparições de Bernard shaw, J.M. Barrie e G.K. Chesterton disfarçados de vaqueiros de Cat Steven como babá, de Bob Dylan vomitando na casa das crianças de Allen Ginsberg sentindo vergonha, de The Beaten (aka) the Beaten victorians (aka) The victorians como os rivais por antonomásia dos Beatles, da gravação de A Day in the life e a premissa que o relógio cantada nessa canção é aquela do estomago do crocodilo, inimigo do Capitão Gancho, representante do tempo e morte.

O terceiro romance desse voraz, expansivo, inesgotável, recorrente Fresán consolida sua escrita, de uma narrativa veloz e curiosa com o olhar "pop" ou pós moderno revisando o clássicos.

Um herdeiro do elemento mais rico e caracterizador da literatura argentina; o cosmopolitismo. Um Borges pop, ou uma das promessas da ficção latino-americana. Desafiador, expressivo, divertido e sério, o livro é um amalgama reflexivo sobre a literatura infantil em si.

E ao final, Jardins de Kensington alcança uma dimensão puramente fictícia e real, plenamente literário, contudo temos também a impressão de ter feito uma viagem engraçada e melancólica.

"Os livros como ponto de fuga, como lugar de onde saltarmos e nos deixarmos cair e sair correndo para de repente penetrarmos na floresta ágeis e velozes. Não por acaso, formando em floresta petrificada, com ramos e raízes que se entranham em nós e floresta na nossa imaginação " pág. 38


Jardins De Kensington
Autor: Rodrigo Fresán
Conrad Editora
520 páginas
Ano: 2007

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