A Garganta da Serpente
Resenhas dos Répteis releases, resenhas e críticas
Texto de:

Guilherme Zarvos

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A Besta e a Memória
- Um livro de Abelardo de Carvalho -

A liberdade formal na literatura contemporânea, principalmente para um escritor culto e corajoso, permite que este homenageie ou incorpore escritores e formas do escrever com o desejo de produzir a continuação da fábula da escrita mundial ou nacional. O refazer que é memória. Para Abelardo de Carvalho sua memória é da Minas antiga ou Província de Goiás com o passado envolto de histórias misteriosas se dando através da transmissão oral, ou permitindo invenções a moda, tendo como fundo a decadência e a brutalidade do Sertão ou do que não foi: a mágoa. Minas Gerais pobre depois do ouro.

O autor, no seu livro Bestiário, dialoga com escritores da memória mineira “doentia”, como Autran Dourado (Ópera dos Mortos), Otto Lara Resende (conto Carneirinho Azul), Silviano Santiago (Uma História de Família), Darcy Ribeiro (O Mulo), entre outros. Expurga, desonra ao mesmo tempo, com o escárnio, e acaba por enaltecer o passado que se mantém no corpo ou na mente. É a Macondo que muitos têm dentro.

Abelardo de Carvalho é um escritor nos seus 40 anos e não tão crente, nos fantasmas mineiros/goianos de seus pares, permitindo-se criar a figura da Besta de Dentes de Ouro que pode parecer o urbano Boca de Ouro do Nelson Rodrigues, com um final de diferente bizarrice: aí, bizarro!, é uma expressão de contentamento da juventude.

Recebi este livro num momento bizarro numa esquina, sentado no chão, com outra pessoa bizarra, numa madrugada, que ele correu à sua casa e voltou empolgado com o livro. Era a Besta que nos rondava. O mistério de um escritor que eu não conhecia, que domina com facilidade o escrever e que diverte. Isto faz dois anos e num dia, num encontro de poetas, fomos apresentados. “Bizarro! Pensei, que coincidência!” Cada detrator ou admirador da Besta, da selvageria da nossa história, a que se perde num mundo em que os Coronéis das Fazendas vão perdendo seu valor, que os escritores já não traem os segredos de família, que a banalização temática e as narrativas curtas dão as cartas, poderão se reunir com os personagens colhidos ou imaginados por Abelardo de Carvalho num romance que agrada e serve à inteligência.

O autor procura o arquétipo que vem do regionalismo inicial do século 19 até o modernismo maduro que falou Mário de Andrade elogiando a geração de romancistas da década de 1930, passando pelos mineiros nascidos na década de 20, citados anteriormente, em que as liberdades temáticas proporcionaram avanços de linguagem e com o contemporâneo, se anos 80 é contemporâneo, citando o livro A Lavoura Arcaica de Raduan Nassar. De outra forma, pensando o caminho das artes no final do milênio, após todas as liberdades do pós-moderno, Bestiário pode ser localizado dentro da proposta de Arthur Danto (Após o Fim da arte: A arte contemporânea e os limites da história) que enxerga no caminho político, sem o dogmatismo ou engessamento artístico do Moderno, uma possibilidade de quem quer aprofundar o seu diálogo com seu leitor. Manter a resistência da memória em época de rapidez informada. É uma atitude política reverenciar o passado tenebroso. Mostrá-lo bestial e maldosamente ingênuo. Escrever um livro denso em tempo de blogs e escrita fragmentada. Que de tempos em tempos a Besta de Dentes de Ouro e seus donos apareçam para lembrar que existiram mais ou menos assim e que existem mais ou menos sei sim.


Bestiário: histórias oficiosas da antiga Província das Minas Geraes
Autor: Abelardo de Carvalho
Editora O Lutador
272 páginas
Ano: 2006

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