A Garganta da Serpente
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Música Possível
- Um livro de Fabiano Calixto -

Imagens e metáforas cuidadosamente armadas, prontas para se abrir diante dos olhos do leitor. Mais do que isso, na poesia de Fabiano Calixto
o vocabulário lírico é retirado do cotidiano e retrabalhado com intensidade. É aí que reside a força impressionante dos poemas que compõem este belo Música possível.

Nascido em Garanhuns, em 1973, Calixto, é um dos mais notáveis poetas brasileiros contemporâneos. Sem exagero algum. Seus poemas resultam de um trabalho cuidadoso e consciente com a linguagem. Ao ler seus versos, a primeira sensação é a de que mais do que ficar restrita ao elíptico, ao clima sugerido, sua poesia dá um salto e mergulha também no significado, no conteúdo. Para ele, sem dúvida, a forma de dizer é importante, mas o que se diz também é.

Nos 53 poemas, divididos em quatro seções, temos a cidade e a violência urbana moldando uma linguagem lírica. A subjetividade é filtrada por uma língua própria, rica de significados, rica de imagens. O poeta tem consciência clara da "agonia" do presente e do futuro, da luta pela sobrevivência em meio ao caos. Como ele mesmo diz, logo no primeiro poema, "Da cidade", "o distúrbio dos espaços em/ nosso campo de visão minimizado./ um exagerado estrangulamento do tempo./ essa é a língua. Pior: essa é a linguagem."

Calixto publicou seu primeiro livro Algum, em 1998, em edição do autor. Mas foi somente em 2000, com Fábrica (Alpharrabio Edições), que sua poesia passou a ser citada. Neste livro, notava-se de saída a construção meticulosa de imagens, como "pés inoxidável", "uma leve sensação/ de chumbo cavalga/ as vértebras" etc. Este mesmo cuidado encontra-se agora nos poemas do novo livro, porém em versos mais longos, com um discurso mais aberto: "a paisagem brota como de um aborto", ou "um menino me dá um tiro./ imaginário./ calibra os passos./ dispara risadas.", ou ainda "em frente ao muro das creche/ onde, escrita a tiros,/ lê-se a epígrafe destes dias."

Este vocabulário, que nasce de dentro da cidade, da engrenagem dos dias, também se tensiona o tempo inteiro com o desejo de uma outra música, de uma outra sonoridade, na qual o lirismo pudesse fluir tranqüilamente. Mas
o poeta sabe que esta canção nos chega, hoje, abafada, como o próprio sujeito moderno, que já não encontra plenitude no mundo.

O tema da música é uma de suas obsessões poéticas. Ele já estava presente em Fábrica, como no poema que dava título ao livro: "eco de canção/ (de esguelha)/ no protetor de orelha". A música chegava abafada. Em Música possível, vários versos apontam para este abafamento, como "aqui também faz frio/ mas o áspero é mais freqüente/ que a música"; ou "sol/ sem esperanças// de melodia."; ou ainda em "Prelúdio", no qual ele fala de Debussy, que "trilhasonoriza o silêncio/ deste bairro pobre de São Paulo", mas no qual a melodia aos poucos vai sendo corroída por "mortes assistidas", pela "tempestade", ou por "ratos" que "defecam/ sobre os livros".

Neste mar de impossibilidades, o poeta procura a "música possível", mas sem abrir mão do risco do lirismo, do sujeito que testemunha as pressões da vida moderna e as transforma em imagens potentes. Calixto fala da sua experiência no embate diário com a cidade (principalmente na primeira parte, que dá título ao livro); mergulha nas suas raízes nordestinas, nos belos poemas da seção "Ônix"; retrata o mundo familiar e afetivo, em "Flauta-azul"; e, por fim, dialoga com as artes em "Poesias reunidas", com poemas que falam de sua relação com a obra de Carlos Drummond de Andrade, John Lennon, Haroldo de Campos, Paulo Leminski e Charlie Parker.

Fazendo sempre uma poesia que vai na contramão do conformismo de nossa época e que revela que a arte poética, mesmo em tempos de terror, é sempre possível e expressa o mal-estar contemporâneo "sobre esse declínio civilizado".


SOBRE O AUTOR
Fabiano Calixto nasceu em Garanhuns (PE), em 1973, e reside em Santo André (SP). É graduado em Letras e faz mestrado na Universidade de São Paulo. Publicou poemas e traduções em vários jornais e revistas, entre eles Folha de S. Paulo, Cult, a Cigarra, Cacto, Zine Qua Non, Inimigo rumor, Zunái, Suplemento Literário de Minas Gerais, entre outros. É autor de Algum (poesia, edição do autor, 1998), Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000) e Um mundo só para cada par (2001), este último publicado em parceria com Tarso de Melo e Kleber Mantovani. Professor, já deu aulas em escolas públicas e ministrou diversas oficinas literárias. Também fez a organização e a introdução do livro A linha que nunca termina - pensando Paulo Leminski, publicado em 2005, pela Lamparina Editora. Com o poeta Claudio Daniel, publicou Prosa do que está na esfera, com traduções do poeta dominicano León Félix Batista (Olavobrás, 2003). Recebeu, para a composição de Música possível, uma Bolsa Vitae de Artes (2003).


Música Possível
Autor: Fabiano Calixto
Coleção Ás de Colete
Co-edição: 7 Letras
Formato: 11,5 x 18,5 cm
Páginas: 96
ISBN: 85-7503-525-8

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