A Garganta da Serpente
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"A Instante Nudez" Grande Livro da Nova Poesia Portuguesa

Surpreendeu-me sobremaneira a "qualidade poética" - feito acervo especial como uma espécie de derrama - da lavra-safra de poemas de José Augusto de Carvalho, em seu mais recente trabalho "A (INSTANTE) NUDEZ" impresso pela Editorial Escritor Ltda, de Lisboa, Portugal. Assuntei-me assim, encantando-me exatamente por sua manifesta loucura-sã ou, ponhamos "lucidez no claro": sua lucidez-nudez (verbal) de contemporâneo poeta lusitano. Puríssima poesia. José-Augusto é autor de outros livros como Arestas Vivas (1980), Sortilégios (1980), Tempos do Verbo (1990), Vivo e Desnudo (1990), Poetas Alentejanos do Século XX e Nós Poesia (coletiva). Aliás, ler esse livro "A Instante Nudez", deu-me uma louca vontade curiosa de saber também os veios anteriores dessas outras obras literárias desse talentoso escritor. Verdadeira poesia é isso.

A bela impressão, a capa com imagem pertinente (Orfeu, de Jorge Vieira), todo o conjunto mostrando desde os poemas de transgressivas reminiscências ("Nenhum auto de fé será bastante/Pra nos encarcerar a realidade") passando pela parte "De Mim e de Deus" com seus cantos e contracantos, aqui invocando um "Deus infantil", repetindo o mote: "E eu um menino pensava/Pensava e nada entendia"(...), dando em seis partes lírico-formais que falam de uma agonia assanhada (e revelada), a escola de catequese (diluos de imagens), angústias, terror e medos, teares de vertentes & transgressões a partir de um lá seu estágio reflexivo a recompor antiga inocência ferida, mais quadradinhos azuis, carris de ferro; o bater dentro do peito, e, mesmo, o aprendizado da morte no próprio recolhimento. Linda seqüência. O enlevo que dá ler trabalhos de qualidade. Confluências de paradigmas. Estilística totalmente pessoal entre a realidade/nudez (do ser-se de si?) e significativos com contextos até filosóficos lapidando pontos de fuga (ah o olhar mordaz do poeta), entalhando assim uma arquitetura com traços de arreben/tensões, numa consciência-agonia e tantos outros resquícios de intimidades revisitadas por decorrência. Interinstantes.

A outra parte da obra ainda viça o ritmo-gume: "A fé de ser aqui e não a fé de mitos/ Tenaz a entontear ocultas as origens/Em mórbido tempos de trevas e vantagens/Conjuga instantes o verbo em tempos interditos(...)". A lucidez no pragmatismo a versejar a construção de entalhes lírico-filosofais, mais que pós-modernos, contemporâneos e fora de série também. Leitura prazerosa. A agonia, o fel, o "Deus", o trágico disfarce da nudez a se revisitar poeticamente, quase instantes-verbos de caudalosos poemas-louvações. O pó impõe o pó de seu império? O poeta desnuda o seu tempo; memórias recorrentes, transvisões. Cantos a partir de. Uma poesia rica, cuja angústia-vívere borda (e pinta) a fartura de versos enriquecidos assim pelas composições dentro dos textos-coisas, sempre o olho nu a tentar re-traduzir esse desmundo (que compreende mal o casulo da palavra) e a verdade do conjunto triste (e decrépito) da própria espécie tão desumanizada.

Murilo Mendes diz que "Toda palavra é adâmica/Nomeia o homem/Que nomeia o objeto". Deve ser isso. José-Augusto de Carvalho é desse diletante estilo e também compõe com estirpe essa lavra-safra em verve altamente criativa. Essa obra dá-nos exatamente o deleite de sua nudez paradoxalmente ele mesmo: lítero-poética de primeira grandeza, questionadora por excelência.

Para verdadeiros poetas não há sensações no esquecimento. Criam-se poemas de pensagens, refaz-se o vivível, troca-se o omelete de lágrimas por virtudes, criações brilhantes decompondo neuras, tornando lirial o abismal mundo-sombra.


A Instante Nudez
Autor: José-Augusto de Carvalho
Editora: Editorial Escritor Ltda.

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