A Garganta da Serpente
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A "Cisterna Poética" do Escritor Donizete Galvão

A poesia no reino da web destila veículos vernaculares, valora letramentos de idéias, às vezes segue pífios cursos sazonais, certamente dita curtumes e feudos culturais também, mas, principalmente leva e traz o que é bom porque, naturalmente, o tempo é o melhor fermento e o melhor juiz. Assim, quando entre tantas invasões protegidas e deletações imediatistas você conhece um bom poeta contemporâneo, você logo caça sabê-lo ainda mais completo e perene, prover-se bem do conteúdo lítero-cultural emergente, divulgá-lo por gosto de dividir guloseimas, haver-se dele no rol de uma típica amizade virtual, pelo menos de início, nessa global panacéia da internet muito além de movediças areias utópicas e pan-poéticas reais.

Donizete Galvão tem estirpe no meio, tem seu veio próprio nas contações líricas ou não - muito além das gerais mineiranças - de onde recolhe (pinça) pedregulhos, tremoços, filões de recordações em refluxos recorrentes que habilmente habilita em poesia de grosso calibre (belíssimos veios liriais) no tear de seu diapasão-gume, tipo azul navalha. "A berinjela irradia/Um sol às avessas/Explosão de roxo". Esse é um fragmento quase haikai dele.

Pondo reparos nos secos e molhados de seus macadames e garimpos neurais, na sua estrutura filosófico-formal de variados filões, na sua estupenda fazeção de poemas, ocasionalmente sabei-me lá porque me veio à mente, à baila, de forma oportuna, a quase metáfora que para mim o traduz inteiro, pleno, eclético e talentoso: uma sua "cisterna" poética.

No fluxo de seus rios correntes, margens e remansos de tantas memórias ricamente revisitadas em bucólicas criações, por estilo e catanças (garimpando-se) produz granizos rápidos, ícaros-drops, porta-lapsos, e, certamente ainda passa na peneira os lotes completos que depois muito bem enlivra; livrando-se muito bem assim dessas preciosas recargas criativas, no pulular de tantas libélulas craquentas (de vida peregrina) em seu ofício de se dizer e se ser, claro.

Na sua lavagem lacrimal em letras, ele se posta em moendas no enfoque de sua vazão-olho (e sensibilidade) colhendo temáticas e ornando tantos cascalhos & seixos que advém dessa sua lavra, fazendo do livro um canteiro-oficina, na sua semeação noiteadeira com signos ficantes, tecendo por aí a aurora epidérmica (unha e acne?) de sua alma avelã, de sua capacidade árvore, de sua composição às vezes neopastoril, de sua salutar poética de novas águas-vivas de minas, certamente cisternas íntimas, ele mesmo fazedor de andaimes próprios e difundindo as resultantes de seus belos prismas (sucrilhos entrevados que sejam às vezes) mas que se re/colhem em sabenças vivíeis, entre a tácita angústia-vívere que bem lhe cai no vislumbre de iluminuras criativas, entre carrancas e desfeições.

Esteticamente perfeito o seu linguajar como manga-sapatinho, às vezes o poeta contemporâneo ponteia águas salubres, às vezes vaga ironias pegajentas. Donizete Galvão vai empoleirando suas asas-criações entre sementeiras, banzos-quase-haikais, tiriricas de percurso, algumas ruminações e até sumidouros mesmo. Vejam/leiam e desfrutem: "Um verão/Cor de limão-cravo/Em sua explosiva madurez"

"Mundo Mudo" (o livro) a dentro, por exemplo, tem essa tônica, tudo a ler, carbono e têmpera, a cisterna (implícita, bem lá dele) trazendo os veios de filões inteiriços, muito além de sua tez chão, alma nau procurando magna para tornear os rebentos-closes. Tudo a ver. Ele ora lembra o noviço Drumond da queijadinha ao leite, ora Bandeira etílico-solitário, ora Quintana (retina fatigada) caçador de si (figos de silêncios ubres) o que não é pouco como polvilho de decantações, o que por si só não é fechamento de ciclos, antes, por sinal, truca o jugo a seu favor, no seu estilo versejador com fragmentos-fragâncias mesmo que ora aqui e ora ali de certas tristices pré-dissimuladas, porque, como disse Pessoa, ele quer doer o indizível que deveras sente. Espiritualidades também resignadas num reboco tácito? Pode ser.

Trocando urbanidades na criação, ou na linha imaginária (encantário? ninhal?) entre sua borda da mata de região natal e tantas lidas viajentas, pincela seus pontos de fugas (ornado de picumãs) nos umbrais sedentários desses funestos tempos neoliberais (mós e nódoas tenebrosas de muito ouro e pouco pão), quando ele mostra o seu lado questionador também enquanto caldo de cultura, bagagem.

Você lê a poesia de Donizete Galvão e a sente carne vívida. Você deita falatório por nomeá-la - pertencimentos, questionários de renúncias? - freqüentá-la para releitura com pensagens novas, captando a arquitetura sensorial feito reservatório de ícaro (cisterna), talvez a cacimba de um não-lugar querendo dizer outros eios, novos ares, nuvens, açúcares, ventos, carbonos, quasímodos e pirilâmpadas. "Coberto de terra e cinza/Está exausto de te buscar/Nos becos e poços/Em que te tens encalacrado" Eis mais um filete de poesia-cisterna.

A "poesia cisterna" paradoxalmente é originária de um local historicamente pétreo, de ferro, carbonária? Pois é. Pedregulhos de andanças e marotices, escondendo-se providencialmente maleixa e cainha a cisterna pôe-se pra fora em um e outro enlivramento, pois resistir é preciso além de um endereço (lugar nenhum), referendando a criação plausível. Há olhos de ver e olhos de enxergar, purgando o vinho-verbo (cálice?) de existir na coerência humanamente possível, mesmo que atiçado pelo pano de fundo de um jogo de cena com aparências que enganam, lagares de decantações, alem do pavio curto das sondagens experimentais, quase caçando lagarta de couve na hortaliça das palavras, feito um recodificador, meio self que seja, na sua cisterna pluvial que não se aceita de alguma maneira e por algum motivo entre sepulturas mal-caiadas, e procura assim, então, um relê na válvula de escape, um quorador para a sua catação, colocando a alma nau para respirar pelo funil de poesia-lampião-aladim.

O ápice que adorei, entre tantas belezuras, foi o gracioso poema "Arrozal"

"Sua tarefa era
Espantar os pássaros
Na plantação de arroz

Com um pedaço
De cabo de vassoura
Batia na lata vazia
De querosene

Voava a passarinhada

Substituir o espantalho
Foi o seu primeiro trabalho"


O "Mundo Mudo" fala por cicatrizes que calam fundo (cisternas do Mundo Mudo?) como tatuagens novas na pele da vida (que ele pinta sub/vertendo - cisterna, pois - a ordem orgânica das koisas); o tal canto torto feito faca como muito bem enrocou no galope o cantor Belchior, aqui, sim, tudo alta literatura no entorno dos palavreiros de Donizete Galvão a todo vapor e a prova de choque.


Mundo Mudo
Autor: Donizete Galvão
Editora: Nankin
103 páginas
2003

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