A Garganta da Serpente
Resenhas dos Répteis releases, resenhas e críticas
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Os Variados Corpos da Poesia Cor de Carne de Jorge Elias Neto
Rascunhos dos Absurdos da Dicotomia Vida/Morte e Seus Subterrâneos Letrais

“... A literatura é revanche de ordem mental
Contra o caos do mundo”

WJorge Luis Borges

Já recebi livro de aluno universitário, de professor, de jornalista, de profissional liberal, de publicitário e de livre pensador, até um que me assustou, no bom sentido, as páginas de rostos contristados de um juiz de direito, e até mesmo de um professor de medicina, ele mesmo médico e sonhador mexicano, mas, agora, recebi um livro de poemas de um médico cardiologista do Estado do Espírito Santo, o também poeta Dr Jorge Elias Neto. Será o impossível?

Eu mesmo, poeta por acidente de percurso e exílio de existir, sempre sonhei ser médico. Sendo de origem humilde, pois não é que acabei poeta, trabalhando, por assim dizer, o bisturi da alma. Fiz tantos cursos, li feito um condenado à vida, até que achei, literalmente, um médico que, sim, trabalha o bisturi da alma, o bisturi da dicotomia vida/morte com a qual ele lida, escrevendo a poesia cor de carne; rascunhos de tantas vivências e subterrâneos desse rol de escreViver a vida por trás e por dentro da máscara de oxigênio, tirando a parte carbonária do ser sensível. Sobreviver é ser livro?

O Poeta Gustavo Felicíssimo, pesquisador, ensaísta, já no prefácio muito bem articulado diz do Poeta Jorge Elias Neto: “Sua obra poética é marcadamente filosófica, metafísica e existencialista (...). Constrói seus poemas tateando o indizível, em busca da ciência de desinventar (...). Trabalhar a idéia da morte e entender a multiplicidade de atitudes do homem diante dessa locomotiva (a morte – grifo nosso). O homem passa a ser o criador de suas verdades e realidades(...) e se lança na investigação identitária de si mesmo e no descortinar do sentindo da vida (...).

Jorge Elias Neto é isso: um médico que labuta entre o sangue e a luz, na sua poesia cor de carne põe a razão, porque o coração arrebata estados de ânimos e ele mergulha na ciência de palavrear o ritmo alucinante da vida que tem em mãos; que órbita como se um médico a coagular momentos irados, versos que saltam como vidas sendo paridas do seu lado pensador, sentidor, gravitando entre a própria alma nau e as acontecências do entorno. Em que submerge tentando salvar vidas, mesmo que expondo sua alma ferida, questionadora. Poeta é feito de escamas das quais tenta se livrar, criando... “Na perspectiva da ponte/O pássaro solitário nunca volta” (Solo, in pg. 21). Eis o poema em vôo de libertação/arrebentação(?). Mais:

“Levem-me as horas
Para os caprichos mundanos!

Já destaquei a etiqueta.

Tomei posse do individuo.

Será que não vêem
No meu antebraço
O carimbo de pago”

(A Prazo, pg 63).

O escritor que se fez médico sabe que não nascemos prontos. Vamos nos fazendo (refazendo) entre agulhas e clichês - em cada escolha, cada corte, cada parto, cada vida que erramos, cada espectro que enfrentamos; a foice da morte, o rebento da vida, a dicotomia paz/horror, amor/dor, sensibilidade e declínio. Seus poemas mostram o homem moderno condenado a pensar-se. Como poeta assume esse compromisso além da lente, do bisturi e da máscara de oxigênio, numa sensibilidade ilimitada e numa desconfortável sentição do que é a bruta vida errada, do sistema bruto que é a saúde corporativada, barateada, do que é significante e do que gratifica o ser no servir, sentir, além de bulas e receitas, de achar-se acima das aparências e satisfações pessoais. É líquido e químico: viver também dói. Sentir é um retirada de etiquetas das coisas abomináveis com os quais nos defrontamos. Não há pílulas de existir a seco, que nos façam passar em branco os desafios, enfrentações íntimas e nódoas do cardume delicado da existencialização. Jorge Elias Neto rascunha de próprio punho as temperaturas do que mapeia. O DNA da alma não tem enredo do que capitular na criação. A Poesia é exigência; o resto é palavrório” nos diz Pierre Bertaux, in Holderlin, ou “le temps d´un poéte.

O autor poderia simplesmente recolher-se no seu canto e se aproveitar do cargo, da posição profissional. Mas prefere ainda assim campear rascunhos e dizer-se também gerador de palavras, do fogo das palavras. Tem carapaça mas tem um organismo sensível. O poeta-médico sonha um ninho em que as palavras contenham a morte. “O poeta é um verdadeiro ladrão do fogo", disse Rimbaud. Resistir é fogo.

“Herdei de meu pai/Esse Cristo forjado em miolo de pão” (Cristo de Pão) é um dos melhores poemas do livro (pg 79). A morte permeia a obra, mas não uma morte-fim, mas uma morte continuação de algum modo. Poetar é plantar sonhos entre arames e muros. “Deixarei para as ondas decidirem/Sobre a imortalidade/Do meu nome na areia. (Epitáfio Desejado, in, pg 89). Lidar com a morte é questionar a vida. E questionar a vida é uma espécie de rascunho de morrer de algum modo; feito a canção de Fátima Guedes que proseia e pontua a dor: “Flor-de-ir-embora/É flor que se alimenta/Do que a gente chora”.

A poesia de Jorge Elias Neto é exatamente isso: flor-e-cultura-de sobreviver. O absurdo de. Muito mais do que rascunhos, são poemas à flor da pele, porque escrever é também uma forma de estar Vivo, muito além dos pólos do vale da sombra da morte para onde toda alma caminha. Mas o autor, sabe sim, com alumbrada visão, transformar sapatos em borboletas...

Os parênteses de sua existência/resistência doem em nós pelos seus versos que celembram além das lágrimas, as areias do tempo na soleira das idéias. Seu escrever é um testamento moral da sensibilidade guardiã de todas as esperanças. A dor existe, e estamos cercados dela. Mas ainda assim há aroma nos aluviões do seu poetar.

Bendito seja o poeta que sabe o corte e sabe o ungüento da palavra para sempre, e de novo, e outra vez, e de levantar-se, argüir, continuar, pelos que se foram, pelos que se perderam no caminho, pelos que partiram antes de nós. Escrever pegadas. A crueza das letras respira vida, apesar de todas as perdas. Rascunhos Poéticos do Absurdo é isso. Um livro e tanto. Uma obra respirando a vida no seu fulgor. O universo de Deus deixa poemas suspensos no ar. Escrevê-lo é de quem enxerga além da vida, o píer do barqueiro e sua leva de estrelamentos. Paradas cardíacas não são fins em si mesmos? Escrever poemas clarifica os santos suspensos nas tábuas de esperanças sentidas, frutos de ocupações. De médico e poeta o Jorge Elias Neto tem a iluminura enlivrada.


Rascunhos do absurdo
Autor: Jorge Elias Neto
Flor&Cultura Editores
2010

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