A Garganta da Serpente
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Chega às livrarias "Sob a Luz do Farol"
- Um livro de Viegas Fernandes da Costa nosso habitante -

Já está nas livrarias o livro de crônicas do escritor Viegas Fernandes da Costa, “Sob a Luz do Farol” (Editora Hemisfério Sul, 134 páginas, R$ 20,00).

São 35 crônicas selecionadas pelo próprio autor dentre as melhores que publicou na mídia. Segundo a escritora Urda Alice Klueger, que assina a apresentação da obra, “são textos que nos podem fazer rir quanto revirar o que temos de mais íntimo e nos apunhalar de dor; são como afiadas espadas de luz que Viegas cria com leveza ou angústia, e que nos esperam no livro para nos atravessar”. O posfácio leva a assinatura do escritor Maicon Tenfen e a imagem da capa à artista plástica Daiana Schvartz.

Leves, irônicos ou líricos, os textos que compõem “Sob a Luz do Farol” demonstram o compromisso do autor com o seu tempo e com a sociedade em que vive.

Viegas Fernandes da Costa nasceu no município de Blumenau em 21 de fevereiro de 1977. Formado em História e professor de Humanidades no Colégio Metropolitano de Indaial, começou a escrever muito cedo. Poeta, contista, cronista e ensaísta, possui inúmeros trabalhos publicados na imprensa nacional e em antologias, detendo inclusive alguns prêmios literários. Viegas mantém também a coluna “Crônica da Semana”, distribuída para milhares de endereços eletrônicos em mais de uma dezena de países.

POSFÁCIO DO ESCRITOR MAICON TENFEN PARA O LIVRO SOB A LUZ DO FAROL

Conheci o Viegas há cerca de dez anos, não lembro se no finzinho de 95 ou nos primeiros meses de 96. Eu caminhava distraidamente pelos corredores do Colégio Pedro II, aqui de Blumenau, quando, de repente, alguma coisa me chamou atenção. Espiei pela janela de uma sala, acho que da sexta série, e vi um sujeito alto e magro que, não bastasse a magreza e a altura incomuns, ainda estava de pé sobre uma cadeira, com uma régua na mão direita e, na esquerda, fazendo as vezes de escudo, um livro que tratava da dualidade do ser na civilização ocidental ou qualquer coisa que o valha.

Pensei que fosse um vendedor de enciclopédias ou algum poeta itinerante convencendo a gurizada a comparecer na performance do fim de semana. Que nada! Descobri mais tarde que era o novo professor de História.

Depois, no intervalo, não pude deixar de reparar os trejeitos do vivente. Aquela cara de "castor aberto" não mentia: era do tipo que morria de saudades do Che Guevara. Por isso me pergunto se o Ernesto, personagem (real? fictício? alter-ego?) que integra boa parte das crônicas deste livro, tem algo a ver com o velho e romântico guerrilheiro...

Quando perguntei o nome do Viegas, na sala dos professores, apostei que responderia algo como "o gato de botas sem as botas" ou "a versão rejuvenescida do Barão do Rio Branco". Claro, o tradicional Napoleão com caretas de delírio também me passou pela cabeça. Mas não, o sujeito parecia normal. A não ser pelo fato de que, como o colega aqui, também gostava de literatura.

- Que é que você lê? - perguntei.

Quase um mal entendido. Em vez de responder o que lia - Baudelaire, Neruda, Drummond, Quintana e Patativa do Assaré, estão todos aqui no livro - começou a falar sobre o que não lia:

- Acho o Jorge Amado um dos autores mais incultos da atualidade.

Proposta de briga, só podia. Naquela época, falar mal de Jorge Amado era o mesmo que falar mal da minha mãe. Mas aí o Viegas citou o único livro do baiano que ainda não havia passado pelas minhas mãos. Bem informado, o professor. E justificou a sua crítica com propriedade e segurança. Conclusão: fiz de conta que detestava o Jorge Amado só para ver em que pé terminaria a conversa. Como atestam A Reunião Literária e o Desalento Literário de Ernesto, crônicas aqui presentes, Viegas nunca se deixou deslumbrar por mídias, aparências ou grupelhos de escritores.

- Você só lê ou também escreve? - questionei a certa altura.

- Escrevo, sim. Um pouco.

- Conto, romance ou poesia?

- Mais poesia. Tenho certas preocupações com o social. A miséria, a má distribuição de renda, o menor abandonado...

De fato o seu projeto cresceu, amadureceu e já rendeu bons frutos. Não posso deixar de relacionar essa nossa conversa a crônicas como Aqueles que desconhecemos ou Nós que aqui estamos por vós esperamos.

- Mas ó! - prosseguiu ele. - O meu ponto de vista é bem diferente desse paternalismo promovido pela imprensa e por certos políticos que vivem por aí...

Também demonstrou preocupações com a linguagem, muito embora torcesse o nariz para o hermetismo que contaminou certos ramos da poesia contemporânea. Exemplificou a sua dinâmica formal através de um trocadilho com a expressão beija-flor, o que, devo admitir, achei meio ingênuo e primário. Mas o passarinho se fortificou, bateu asas e hoje voa tranqüilo no lirismo de Porque Lua, que abre esta antologia, ou no repente d'A Profecia do Pirapora do Bom Jesus, quase um faroeste caboclo com toques de um barroco capaz de contextualizar o drama da seca e dos retirantes. Você lê e fica com sede. Lê e sente o suor que lhe escorre pelo rosto fatigado.

Percebi que o Viegas era calmo, diferente do personagem há pouco incorporado na sala de aula, e nunca, mesmo quando abordava temas mais pesados, deixava de sorrir. Desconfiado que sou, imaginei logo que fosse um desses debochados sem eira nem beira nem flor de figueira. Depois observei melhor e vi que não era nada disso. Quem sorria não era exatamente o aspirante a escritor. Era a sua serenidade. E eu, que naquela época já havia perdido as esperanças, só pude soltar um palavrão mental.

"Deus do céu! Esse cara ainda tem fé na humanidade!"

O próximo passo - que dúvida?! - foi pedir que me trouxesse alguns de seus manuscritos. Fiquei de lhe mostrar um dos meus. Naturalmente, por causa da correria, dos desencontros ou de pura timidez, nem eu nem ele cumprimos a promessa. Só bem mais tarde é que tive acesso à literatura do Viegas, aos seus poemas e principalmente às suas crônicas. Chegavam-me através da Internet, um meio ágil e eficiente de driblar as barreiras impostas pelas tradicionais edições em papel. Foi na tela que inicialmente apreciei as desventuras de Ernesto, bem como o humor maroto de Morreu de Unha, onde o cronista que adora escrever sobre moças - Cíntia, Jussara, Daniela... - faz uma referência certeira ao imortal Vatsyayana (autor do Kama Sutra).

Isso sem falar nas narrativas leves e cotidianas, sempre irônicas, agradáveis, que o autor pegou de ouvido nas esquinas da vida: O Piromaníaco, O Rapto da Noiva, Padre Manoel e muitas outras. Agora está tudo aqui, no conforto e na austeridade do livro. É só aproveitar.

Naquela nossa primeira conversa, perguntei ao Viegas se ele desejava publicar os seus escritos.

- É difícil - respondeu. - Quem sabe um dia.

- Faz o seguinte. Quando sair o seu primeiro livro, me convida pra fazer o posfácio.

- Taí, boa idéia!

Não lembro se eu estava de bobeira, muito menos se o Viegas me levou a sério. Só sei que o posfácio está aqui. E o livro, eis o melhor, algumas páginas ali na frente. Boa leitura.


Sob a Luz do Farol
Autor: Viegas Fernandes da Costa nosso habitante
Editora: Editora Hemisfério Sul

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