A Garganta da Serpente
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O relato de Solha

Faço um preâmbulo ao texto para justificar duas coisas. Primeiro não sou crítico de literatura e segundo sou amigo de Solha. Por tanto suspeito o suficiente para fazer esse texto.


O Relato de Prócula, livro escrito pelo soracabense/pombalense Waldemar Solha, tem causado excelentes criticas a forma e conteúdo da história. E vindo de Solha está mais do que explicado. Quem já teve algum contato com a sua produção literária sabe o bom gosto que ele possui com as palavras e suas discrições. Falar de Solha é ver as coisas multifacetadas e de vários pontos de vista. Sua erudição e suas leituras intermináveis fizeram dele uma espécie de contador de história sofisticadíssimo, porem, escritas de uma forma muito singular, própria dele. Quem leu o seu outro livro A Canga (que virou um belo filme de Marcus Vilar), sabe do que estou falando. Além claro do olho na arte. Principalmente teatro, musica, cinema, as artes plásticas, literatura, ou seja, multifacetado como sua obra.

Que bom que Solha resolveu escrever seu relato. Pois se tivesse ficado guardado nas gavetas da memória tínhamos perdido um excelente texto. Rico de ficção e realidade ali juntinhas. Todos dentro de uma metáfora chamada vida que hora avança e hora retroage. Fatos. Tudo são fatos e a realidade comprova. As pessoas existem, o local existe, as afirmações são sinceras e as relações existentes. Claro, com o enfeite da literatura. É uma história que junta muitas histórias e quer de certa forma mudar o mundo. Pois comprovado os fatos ali anunciados, comentados e até comparados com outros casos que possuem histórias parecidas como Moises e Krshina. Até Lampião dá mote para se perceber como a história faz a história. E que estórias e historias precisam ser contadas.

O livro de Solha é pra ser lido - de preferência - em pouco tempo. Pois a história se passa rápido demais sobre um tempo muito longo. Mistura ficção e realidade. Uma realidade cultural apresentada de forma brilhante de coisas e cenas do sertão paraibano tão bem conhecido pelo autor. Os personagens são excelentes. Todos baseados em pessoas reais. E todos preso a um homem empreendedor, que além de fazendeiro ainda era padre. Padre Martinho é uma espécie de visionário que vai percebendo determinadas coincidências da história e o seu senso de curiosidade leva-o a descobertas desesperadoras. Existem algumas verdades que não podem ser ditas. Acreditam alguns.

Solha escreveu um livro envolvente, palpitante, polêmico e criativo. Acho que ele fez inovações na literatura com seus dois últimos livros. O do poema longo Trigal com Corvos e esse agora, chamado Relato de Prócula. Pra quem não sabe, Cláudia Prócula era esposa de Pôncio Pilatos. E foi encontrado um relato dela - datado dos anos 40 a 60 D.C (comprovado em carbono C 14) - onde ela relata que Jesus de Nazaré foi uma invenção romana para apaziguar os judeus a aceitarem o domínio romano. E que Jesus não morreu. Apesar de ter sido julgado em praça pública, condenado, espancado e depois crucificado. Só que a partir daí a versão dela é diferente. Afirma que Pilatos fez um acordo com Jesus e que ele recebeu na hora que disse 'daí-me de beber' um remédio para cair em sono profundo. E que depois foi levado para o santo sepulcro e encerrado nele. Só que depois - como havia sido dito a todos que ele ressuscitaria - ele sai do túmulo e vai embora vivo para o Egito viver o resto dos seus dias com Filos Alexandrinos ou Filos Judeus, filosofo afamado na época em que aconteceu o relato. Ou seja, veja só meu caro leitor, que nitroglicerina pura é servida no livro do meu amigo Solha. Ou seja, Jesus do ponto de vista do relato de Cláudia Prócula, mulher de Pilatos, era nada mais e nada menos que um agente infiltrado dos romanos para fazer com que os judeus aceitasse a dominação de Roma sobre os judeus, samaritanos, saduceus e fariseus. Ou seja, muda toda a história do cristianismo até aqui. É bomba ou não é?

Mas o relato de Solha é envolvente do começo ao fim. Por isso que afirmei que o livro deve ser digerido rápido. Até - se for o caso - voltar e perceber passo a passo como o autor o fez de forma artesanal. Com cortes precisos. Parece um roteiro de filme. Tem cadência, tem abrangência e tem o mais gostoso em literatura: a surpresa do autor. Quando menos você espera lá ta ele lhe dizendo coisas e trazendo informações que você pensa assim: como é que eu não tinha pensado nisso? A relação que ele faz dos últimos dias do Rei do Cangaço Virgulino Ferreira da Silva - O Lampião, em seu Serrote de Angicos sem saída e o Monte das Oliveiras, com os mesmos estados de angustia e letargia, foi brilhante. O livro é uma surpresa atrás da outra e eu não vou contar mais nada. Procurem uma livraria mais próxima e compre. Dê de presente nesse Natal. Pois é uma excelente história.

E o Waldemar Solha continua sendo uma caixinha de surpresas em? Boas surpresas, diga-se de passagem. Só peço a Deus que lhe dê saúde. Para que ele possa continuar contando histórias. Dessas como o Relato de Prócula. Que pode simplesmente mudar o mundo (Bento XVI que se cuide). E a Paraíba que se orgulhe de ter um filho desses. E desses que adotaram a Paraíba como sua. Que luta ao lado dela para que ela seja apenas reconhecida pela pujança que tem. Só que ela ainda precisa saber disso. E Solha tem feito isso desde o tempo que o conheço. E lá se vão mais de vinte anos. E sempre o vi defendendo a grandeza da Paraíba pela grandeza dos seus valores. Nascer na Paraíba é um fato histórico. Mas adotá-la é um outro fato amoroso. Que bom que Solha existe. E que bom que estamos tendo o prazer de viver em seu tempo e sua hora.


Relato de Prócula
Autor: Waldemar Solha
Editora Girafa
208 páginas
2009

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