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A trajetória da esquerda em livro
- Um livro de Paulo Henrique Costa Mattos -

O período compreendido entre 1900 a 1975, durante o qual se destacam acontecimentos históricos tais como a chegada das idéias anarquistas e marxistas no Brasil, a criação dos primeiros partidos socialistas, o PCB, passando do período getulista ao auge da ditadura militar, é um período da História nacional que será essencialmente marcado por uma profunda redefinição da economia brasileira, e, conseqüentemente, de sua sociedade. Como bem diz o historiador Caio Prado Júnior: "Esse será um período em que haverá um novo alento ao sistema colonial dentro do qual se acha enquadrada a economia brasileira".

Falar do "alento" do capitalismo brasileiro desse período é falar não só da aceleração de seu desenvolvimento, da mudança de seu padrão tecnológico e da lógica de sua acumulação, mas, também, das condições de vida dos trabalhadores, das "classes intermediárias" e das lutas desses. O escritor e professor Paulo Henrique Costa Mattos, residente em Gurupi, escolheu a História da Esquerda Brasileira e a Guerrilha do Araguaia como exemplos dessas lutas.
E, para explicar os elementos componentes desses fatos, fez uma síntese histórica das condições econômicas e políticas do período de avanço do capitalismo brasileiro. Assim surgiu o livro "Vida Vermelha - História da Esquerda no Brasil - Dos primeiros partidos à luta armada no Araguaia" (Editora Veloso).

Para compreender a História da Esquerda Brasileira e a Guerrilha do Araguai,a enquanto um fenômeno histórico-político, foi necessário buscar compreender a trajetória histórica dos comunistas/socialistas brasileiros, como engendrou-se a luta guerrilheira no país e o seu fracasso. Assim, Paulo Henrique precisou conhecer um pouco do debate teórico marxista, a stalinização na URSS e o papel de algumas das lideranças daquela revolução, como Lenin, Trotsky e Stálin, e as formulações teóricas e influência desses sob os partidos de esquerda no Brasil.

Nesta obra, o autor cita a Revolução Russa, um dos fatos históricos, sociais, políticos e econômicos mais importantes do Século XX, e alguns de seus dirigentes, formulações teóricas e concepções ideológica, discorrendo particularmente sobre os dois partidos que estudou com maior ênfase: o PCB e o PCdoB.

O escritor mostra a gênese desses partidos, como as análises estruturais e conjunturais desses, no Brasil, eram absolvidas mecanicamente a partir das análises formuladas da Revolução Russa e como essas concepções empurraram o PCB e o seu principal racha, o PCdoB, a adotar diferentes estratégias e objetivos políticos na luta pelo poder no Brasil. Aliás, a questão da "tomada poder" é central para todo Partido que se autoproclama revolucionário, socialista (ou comunista) e marxista. E serão principalmente as concepções ideológicas advindas da Revolução Russa que levarão a chamada esquerda brasileira, até 1980, a se aglutinar tradicionalmente em torno de Partidos e Organizações comunistas com determinados princípios e padrões propostos contidos em programas políticos diversos, mas que guardavam alguns vícios e posturas semelhantes que nortearam suas lutas e intervenções políticas.

Compreender o conteúdo histórico, político e cultural da História da Esquerda Brasileira e da luta Guerrilheira do Araguaia é fundamental para se compreender o porquê da existência dessa e o padrão invariável do comportamento das classes dominantes no Brasil, marcado pela cooptação, repressão, intolerância e tentativa de extermínio de todos aqueles que ousaram questionar o status quo estabelecido. Embora, discutir a questão das concepções, origens das organizações políticas de esquerda no Brasil, de forma detalhada, não tenha sido o objetivo desse trabalho, visto ser um assunto tanto quanto complexo para ser tratado nos limites da referida obra.

Para compreender minimamente o acionar político da esquerda brasileira e a realidade local na qual se desenvolveram algumas de ações dessa, como a Guerrilha do Araguaia, foi necessário que o autor fizesse um apanhado de quais eram as especificidades e características das regiões sul e norte, não só do período de 50-75, mas de um período mais largo, que possibilitasse a compreensão dos principais elementos diferenciadores da população goiana do período. Responder como a população dessas regiões vivia, quais eram os aspectos distintos, como funcionava sua vida cultural, social e econômica é fundamental. Embora isso diga pouco sobre a Guerrilha do Araguaia, ajuda a compreender porque esta região foi escolhida para ser palco de tal acontecimento e qual o impacto psicológico que ele teria ocasionado nessa população.

No período histórico brasileiro, onde é analisada a economia do país, encontram-se evidentes as principais contradições internas do sistema capitalista nacional e a raiz do desequilíbrio crônico de nossas finanças externas, com todas suas graves conseqüências: instabilidade financeira, inflação, perturbações profundas e incontroláveis conjunturas.

Nesta obra, Paulo Henrique nos mostra que a opção pela luta armada no Brasil, e as tentativas de implantação da guerra de guerrilhas foram alternativas políticas. Manifestações resultantes do fechamento dos canais políticos de expressão democrática e uma conseqüência lógica da violência imposta pelas classes dominantes brasileiras, que segundo o autor, nunca fizeram do Estado Nacional, um agente civilizador e gerador da Justiça Social e da Democracia.

No caso específico da Guerrilha do Araguaia, que contrapôs num cenário único (a região da Serra das Andorinhas, de Xambioá, da fronteira do Pará com o antigo Norte Goiano, hoje Estado do Tocantins), dois atores em graus variáveis estranhos à realidade local: jovens guerrilheiros e militares procedentes de áreas e situações bastante distintas daquelas em que o conflito se deu. O autor também observou que a própria extração social era bem distinta daquela população local. A maioria era composta por filhos das camadas médias da sociedade, eram alfabetizados, muitos com curso superior e com vivência da cultura urbana dos grandes centros e sua característica plenamente capitalista.

O povo da região do Araguaia, em sua maioria camponeses, donas de casa, trabalhadores manuais e gente humilde, assistiu bestializado e praticamente sem compreender o que verdadeiramente acontecia. Ficaram completamente assustados quando viram "moradores da região" fugindo para as matas e sendo perseguidos pelos militares como caça a ser abatida.

A verdadeira caçada humana praticada pelos militares aos "terroristas", coisa que o povo da região nem sabia o que era, é um dos capítulos mais sangrentos da História brasileira, similar a Canudos, a Palmares, a Cabanagem e a tantas outras violências oficiais, também pouco estudadas, e por isso mesmo também dá margem ao cultivo de fantasias e histórias mirabolantes sobre o tema.

Paulo Henrique registra que, de qualquer forma, para muitos moradores das regiões daqueles acontecimentos, seja no Araguaia ou em outras localidades, os envolvidos já viraram lenda. E ressalta que hoje, vinte anos depois do fim da ditadura militar no Brasil, talvez possamos dizer, sem medo de errar, que os erros cometidos pela esquerda brasileira, nas suas formas de lutas legais e clandestinas, não geraram na população o acúmulo político-ideológico e a conscientização política desejada para engendrar sequer um governo democrático e popular, quanto mais uma Revolução Socialista no país a curto ou médio prazo.

Por último, o autor destaca que é preciso dizer que compreender a História da Esquerda Brasileira e da Guerrilha do Araguaia como episódios históricos e políticos fruto de uma violência maior gerada pelas classes dominantes do Brasil é um passo importante para compreender a História do Brasil no século XX, seus acertos e desacertos. É, acima de tudo, compreender e negar que, no futuro, se restabeleça a longa noite que se abateu sobre várias gerações de brasileiros. Gerações essas que foram empurradas ao sacrifício de uma luta sem retaguarda, de um combate desigual e de uma vitória pouco provável. Mas, todavia, é preciso também lembrar sempre do poeta e militante anti-racista James Baldwin: - "Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado, mas nada pode ser modificado se não for enfrentado".


Vida Vermelha - História da Esquerda no Brasil - Dos primeiros partidos à luta armada no Araguaia
Autor: Paulo Henrique Costa Mattos
Editora: Editora Veloso

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