A Garganta da Serpente
Resenhas dos Répteis releases, resenhas e críticas
Texto de:

Ricardo Alfaya

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Entrenós: A Audácia de um Projeto
- Um livro de Regina Lyra nosso habitante -

Entre_Nós é um dos melhores livros de poesia que tive oportunidade de ler. Digo isso, tanto pela qualidade dos inúmeros poemas que me encantaram quanto em razão do fascinante, difícil e original projeto a que se propôs a autora, Regina Lyra.

A chave para a melhor compreensão da obra se acha na palavra "entrenó", que, conforme a própria Regina, constitui a principal fonte de inspiração para o título. Porém, na verdade, não apenas para o título. A partir dos significados dos substantivos "entrenó" e "nó", bem como do pronome "nós", a poeta desenvolve um belíssimo projeto, com ênfase em cinco aspectos principais: o metalingüístico, o ecológico, o existencial, o social e o sentimental.

O interessante, no entanto, é que a exploração desses temas muitas vezes se dá, de variadas formas, num mesmo poema. São os cruzamentos temáticos, as bifurcações, os "nós" que ligam diversos assuntos, idéias, orações, pessoas, sentimentos. Regina, assim, a par da própria definição do termo que inspirou a obra, situa sua poesia entre dois nós. Isto é, explora, simultaneamente, tanto as conotações positivas quanto as negativas do substantivo "nós". Afinal, conforme o Aurélio Eletrônico: entrenó - "porção do caule situada entre dois nós".

Graças à soma desses recursos e procedimentos, consegue obter valiosa diversidade temática, garantindo, ao mesmo tempo, a unidade da obra.

Num momento inspirado, o prefaciador Carlos Murilo Leal se referiu às palavras grafadas verticalmente como "palmeiras". Um termo muito apropriado para referência, sobretudo considerando tratar-se de uma poesia que nos vem do Nordeste, da encantadora João Pessoa, de tantas palmeiras.

Explorando, à Bachelard, meu "Direito de Sonhar", atrevi-me a ver também, nessas mesmas palavras verticais, os caules, residência dos entrenós, ficando os versos acima delas como frondosos galhos e folhas balançantes, a exemplo, inclusive do título de um dos poemas.

Tem-se aí um extraordinário nó: metalinguagem e ecologia. Esse, a exemplo de tantos outros muito criativos, que não vou aqui destrinchar, pois em absoluto desejo revelar tudo que vi nesta obra. Afinal, se o fizer, o que restará ao leitor descobrir? E este é um livro que requer a postura do descobridor, do investigador de delícias. Não é obra que se revele ao primeiro olhar, exige a releitura.

Por outro lado, trata-se de cometimento discursivo, com toques de concretismo e predominância do minimalismo. Aliás, o que pode ser mais minimalista do que um nó? Os átomos são mínimos nós que, ligados entre si, formam a maravilha do Universo.

Regina, em sua delicadeza, exercita o difícil equilíbrio entre a claridade e a sombra. No entanto, em Lyra a nebulosidade nunca é completa, porquanto cada parte é iluminada pela luz maior do projeto geral.

Verdade que, ao longo da leitura, em muitos momentos nos veremos diante de intrincados nós, tão apertados, tão emaranhados, tão sofridos. São os nós da dor, do sofrimento, das ausências. Da indignação, perante a indiferença dos homens ao poético, ao justo, ao bom. O lado negativo dos nós. Sobretudo em momentos assim, surgirão silepses, elipses, espetaculares saltos sintáticos, propositais truncamentos na linguagem, ruídos e outros meios dramaticamente empregados. Recursos audaciosos, em favor da estética e do projeto da obra.


Entre_Nós
Autora: Regina Lyra nosso habitante
Editora Universitária (UFPB)
2008

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