A Garganta da Serpente
Ouroboros histórias sem fim

O SONHO


        A porta finalmente se abriu.
        Tateei as paredes frias à procura de um bocado de luz. Sabia que nada poderia mudar aquela noite maldita. Sabia que nenhuma estrela poderia me escutar. O que restou? Era só uma dor disforme por toda a alma, a certeza da perda.
        Encontrei o quarto. A cama vazia. Precisava - desesperadamente - tentar dormir. Tinha esperanças de que o amanhecer talvez transformasse o passado.
        Desabotoei meus temores e me preparei para sonhar.
(A Garganta da Serpente)

        ...mas a noite me sufocava como se eu estivesse embaixo de uma lage, um escombro...doia-me todo o corpo, os músculos tesos, minha cabeÇa zonza, meu coraÇao pulsando as mil pulsaÇoes do sentir...queria água, uma sede maldita me pegava os lábios...tentei levantar mas o mundo girava e se contorcia o chao, as paredes...minha cama girava num universo caótico...tentei pensar nos momentos bonitos que vivi, em quintais e ventos da tarde, em jaqueiras, bananeiras, gatos e peladas no campinho do ouvidor...fixei-me em olores, em sensacoes de protecao: um abraÇo, um sorriso, um afago em minha mao...

        Mas já não existia mais, era passado... o presente, um sonho... a saudade, uma realidade.
         A luz do quarto invade meus olhos - doloridos, o ar entra em meu pulmão - fechado, e os pensamentos divagam - soltos...
         Perda! Perda não só dele, mas de mim mesma! Perda da minha juventude - dedicada a ele, perda de meu amor - ele!
         Sozinha, apago a luz e sento-me no escuro... olho pela janela e vejo pássaros, pessoas, automóveis... não consigo dormir, já é tão tarde... e tão cedo...

        O desespero era maior que a ínfima chama de vida que insistia dentro do peito. e a janela, maior que o mundo. A saída daquele beco sem saída. Abri a fenestra que me chamava, e me entreguei aos ares que ansiavam pelo meu corpo. Morri.

        Morri...Mas morri de medo de um um dia nao poder acordar,de um dia nao poder sentir o ar entrando pelos meus pulmoes,pois se um dia isso vier a acontecer, nao poderei mais temer a noite que me anceia,dia pos dia,eu quero poder viver para sentir isso acabar...

        Vida, mais q vida - derepente me vejo dizendo esta frase em um julgamento, mas porque raios estão me julgando?Não sei.Só sei que vejo pessoas a minha volta todas revoltosas e alucinadas querendo ver a minha morte.Foi quando olhei para uma criatura muito estranha que se dizia ser o juiz de toda aquela confusão, e ele me disse já me condenando a morte - sua alma pertence a Jesus, pois o seu rabo pertence a mim ahahahahah....

        AÍ ME APERCEBI K ESTAVA DE FRENTE COM O TEMÍVEL DIABO
         E SÓ AÍ É K PERCEBI TUDO O K TINHA PERDIDO ATÉ ENTÃO.JÁ ERA TARDE ELE O TERRÍVEL ESTAVA A ME JULGAR TAL COMO AS PESSOAS O FIZERAM ATÉ AÍ...SEM SABER COMO SAIR OUVI UMA VOZ K ME TRAZIA DE VOLTA À REALIDADE
(crazy's)

        Uma realidade cheia de sofrimento igual a do sonho.Mas que de serta forma era melhor que o sonho.E meus caros amigos essa e a nossa realidade não tem sonho não tem nada esta e a pura realidade.
        
        

        Mas só que eu já escrevi tudo.
         por favor me de a resposta estou esperando.

        Mas o que é a realidade se não um reflexo de algo que é chamado de realidade perfeita? Sim... eu morri, eu sonhei e pude ver a realidade. A verdadeira realidade. E cá para nós, você enlouqueceria se visse essa realidade. Mas como pude não enlouquecer ao ver tal realidade? Talvez ela tenha tido pena de mim. Ah! Não se preocupe comigo. Meus olhos cicatrizam toda vez que os arranco.

        Mas o sangue que deles sai... borbulha em minha mãos.. quente e teimoso. Sinto a pele se arrepiar e o sonho volta... cada vez mais trágico... fujo por caminhos desconhecidos em terras extranhas... pedras me atiras, mas passo por ti ileso... rouco de tanto gritar teu nome... pernas doendo e mastigando a terra virgem... sou agora a lama do mal... sou asas voando rente ao chão... sou víbora rastejante... sou tua pele, por dentro e por fora... e, enquanto tentas dilacerar-me, busco sobrevivência no ar da vida... pulso a cada gota do sangue que me jorrei... refresco o inconsciente... tremo o necessário... varro pra debaixo do tapete toda a úlcera que me mata... com os olhos não mãos, vejo tudo o que não posso... com o coração nas mãos, sinto tudo o que não tenho... tuas mãos...

        Então, sinto que tudo não passa de uma grande enganação. Um engodo de minha própria mente...vejo-me às voltas com minhas maluquices enquanto deveria estar buscando a liberdade total, que é tudo que importa. Talvez seja impossível escapar a esse círculo fatal e como a todos, um dia a morte me tocará.

         Já sei, apressarei o trabalho da morte, pondo fim a todo esse meu sofrimento, acabarei com minha vida.Mas como acabar com minha própria vida.Preciso achar uma maneira, encontrar forças, coragem.Então virei-me chacoalhei a cabeça e esse sentimento, essa vontade de acabar com minha vida não me deixava em paz, foi quando resolvi tomar toda dose de cocaína que achei em casa. Preparei a siringa, esquentei a colher com a mais alta dose que ja tinha tomado em toda minha vida e assim apliquei para tentar me livrar para sempre dessa dor, a última coisa que consigo lembrar nesse instante é de ter apagado.......

        Alta dose de cocaína, a mais alta que tomei, mas insuficiente para acabar com meu ser. Apaguei, não sei quantos dias ou horas, pois sempre odiei calendários e relógios. A fome batendo forte gritava para mim - Você está vivo, idiota e estúpido ser. Esqueceu que seu Deus é o dono de sua vida? Como ousou tomar cocaína em vez de buscar alimentos para a vida? Morrer, você vai, mas calma. Ainda há uma missão para ser cumprida e ela é todo o sentido de sua vida. Levanta-te...

        Levantei-me, mas para que? Como saber se aquela voz não era a mesma do meu juri? Não sabia o que pensar, só sabia que não tentaria me suicidar novamente.
         Mas só isso não bastava, estava procurando outra coisa, uma coisa que me levasse, alguma coisa que me...

        Alguma coisa que me arrancasse do estupor, uma dor incomensurável ou um prazer pungente, gelo ou calor, desde que não fosse mais água morna indiferente à ebulição... dilataria minhas narinas com uma chave de fenda? cavaria sulcos na parede com minhas unhas? A fome me arrastou até a geladeira como um carrasco leva o condenado à guilhotina. Então cometi o ato que protelara por toda a existência: mergulhei minha face na grande torta de coco que sobrara do casamento... e me deixei sufocar na maciez açucarada dos flocos brancos como a neve...

        Estava melhor. Prometi nunca mais tentar acabar com a minha vida, afinal era a minha vida tudo o que me restava, se acabasse com ela, só restaria de mim más lembranças cuidadas nos pensamentos alheios. Tinha que viver para mudá-las, para mudar a mim mesma..

        Para voltar ao sonho, para buscar o sonho...estava sentindo um misto de alegria e tristeza...uma pequena gota de esperança em mim brotava e me dizia também; vá com calma, um passo de cada vez. Experimente a vida, sinta o sol da manhã, respire o ar a sua volta, caminhe com os pés no chão...busque o sonho sempre...

No sonho, somos visitados por nós mesmos.
(Paulo Bomfim)
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