A Garganta da Serpente
A Língua da Serpente poemas
Poemas de Agostina Akemi Sasaoka
* Direitos Autorais Reservados


 A GARGANTA DA SERPENTE 

Não há luz.
O tremor do útero
anuncia a sílaba.
Diga tua profecia
enquanto refaço o evangelho.
A boca sorri tortuosa
maldizendo a dança dos temores.
Pronuncie!
Não ouse sussurrar o caos.
O terço se enrosca
em minha língua
enquanto a primeira estrela se arrebenta.
Hospedo-me
nas gavetas do inferno,
onde os verbos maceram.
Não olhe:
vou nascer.
A garganta arreganhada
permite o sibilar do cio
Esfrego-me em teus pudores
enquanto conjugo um bocado da lua.
As escamas pulsam displicentes
sob a fronteira úmida da dor.
E o verde rasteja
- infindável -
trazendo a serpente.


 INFINITIVOS 

Compreender
os vacilos de Deus
sobre a Terra imensa.
Aceitar
o sorriso indesejado,
o sonho trocado.
Infringir
as regras do óbvio
para virar poesia.
Pôr
as estrelas no colo
e os erros no bolso.
Escutar
o eco do outro
através do espelho.
Permanecer
com os braços abertos,
com os corpos grudados.
Dormir
de um século pro outro
e acordar.


 ESPERA 

Os violinos endoidecem a madrugada.
Ao meu lado
há um demônio que rodopia
incansável.
A cama está vazia.
Não há cigarras.
Aguardo o sinal do Senhor.
Do telhado,
a coruja me observa.
Há estrelas
estateladas
em meus olhos.
Deus se aproxima
e inala pudores.
Restou o homem
encostado na porta.
Pode entrar:
estou aberta.

 ANIVERSÁRIO 

Eis que o bafo
dos anos que escorrem
aquece meu corpo
mais uma vez,
babando em mim
a idade,
alfinetada
num bolo de aniversário,
onde a parafina brinca
e o açúcar sobra,
ante um corpo
de curta idade biológica
e maturidade precoce
que rasteja pelo mundo
pensando-se imortal.


 VELOCIDADE 

A criança se desprende
e espanca o carro:
súbito silêncio dos pneus.
O vôo da vida,
os cacos nos olhos.
Nos lábios da calçada
deposita
flores e vísceras.
Com o coração no asfalto
a última
brincadeira vermelha:
a formiga afogada,
a bola perdida.


 TRAVESSURA 

Ah, menino...
Também corri muito
atrás dos mesmos arranhões que você.
Papai-do-Céu nos observava
e as estrelas
eram mais inatingíveis, não é?
E a bola
era o mundo
que batia no muro.
Todos os doces
machucavam nossos sorrisos...
Que fizemos dos sonhos,
menino?
Foi a vida que se tornou um
esconde-esconde.


 SUBURBANOS 

Parte-se a boca.
De todos os pedaços
dos corpos desunidos
fogem vermes imaginários.
Os ratos vão marchando
entre as inumeráveis madrugadas da favela.
Num último escarro
a vida se trapaceia
(mais uma vez).
Ainda é muito noite:
os seios não se vão pelos decotes,
mas permanecem cambaleantes.
O homem
- risível pataca de sonhos -
contorna as mulheres
com a fumaça do cigarro.
É preciso matar...
O mundo está muito flácido.
Os becos se inclinam
para proteger a facada.
- Venha cá, tolo cãozinho:
talvez seja o último gato.
A cidade exala seu perfume doentio
e começa a se devorar.
Os cemitérios cospem seus fantasmas
que vêm ao nosso encontro.
Do meio do meu sorriso
desprende-se o teu desejo.
Pequemos,
ainda que haja amanhã.

 LIGAÇÕES CRUAS 

Gemeu a escuridão...
No abraço silencioso
entre o muro e a noite,
tombaram os corpos.
Sobre as almas,
escorreram a dor e a paixão...
Por todas as esquinas,
esqueceram seus beijos
os amantes nictálopes.
Cada beco
ficou úmido,
extático...
Tocaram,
trocaram-se.
Um gomo de prazer
fartou o sono.
Assim,
o sexo se ajoelhou
perante as estrelas
e transpirou amor.


 FESTIM 

O corte suou ternura...
Seiva
brotou da dor.
Verme,
tocou a lágrima.
Chão despido,
perfurado...
O orvalho do cio
afoga os insetos...
A lua aquecia sombras.
Sobrou,
do uivo distante,
uma estrela.
A noite escorria entre as nuvens.
A brisa
- tola -
acariciava os cabelos das árvores.
Galhos suportavam corujas alegres.
E o sono,
sugou a escuridão...
Após o nada,
um raio,
um riso de sol,
acendeu a luz do quarto.


 APELO 

Não mais o beijo,
apenas a sombra
dos teus lábios em mim.
Nada do cio
afora o grito incontínuo.
Não mais teu sorriso,
só o suor
que vaga moribundo em minha pele.
Nada do gesto
além do pecado
(incondicional).
Não mais a nudez:
apenas o eco
do teu corpo em cópula.


 MARCAS 

Pela pele tola
o rastro impuro
de minha presença ambígua.
Sob os cílios imundos,
os silêncios parcos
de meu corpo desfeito.
Entre as pernas suplicantes,
úmidos vestígios
do beijo incontido.
Mãos adentro,
meu cio irrefletido
estupra a solidão
de seu afago.

 PAI 

O homem sorri.
A mulher cedeu.
- a tola certeza de que tudo será diferente -
O corpo se expõe.
Mãos que afagam,
ou exigem?
A mulher ama.
O homem gozou.
E num esperma
expele-se a vida.
O membro se encolhe:
já não fará parte de mais nada.
O erro
de não poder parir.


 GÊNESE 

O sol caiu
umbigo adentro.
Sob a teia partida,
a mosca pendente.
Do outro lado do espelho
corpos,
suor,
lágrimas...
Ante a bactéria faminta,
um trilho de sêmen seco.
Havia um sono
que boiava entre a poeira,
entre as estrelas,
entre pernas de gesso.
Na garganta da noite:
cama desfeita,
perfeita,
silêncio fetal.


 CONFISSÃO VERMÍVORA 

Há um verme
em que se funda todo o cio.
Afora seus olhos ausentes
nada parece dor.
Ante sua lágrima,
perfeita e inútil,
pousam segredos.
Sob os lábios,
pela garganta ferida,
esconde-se ternura.
Parasita
que destrói enquanto goza...
Habita as encostas do corpo
sem pedir perdão.
Na perversidade de sua aparência
disforme e sincera:
a venda do sexo,
a cavidade do silêncio.
Em seu escarro noturno
cacos de misericórdia...
No reino das estrelas foscas
assim se rasgam as verdades,
os pudores:
pelas patas do verme supremo.


 INTERRUPÇÃO 

Ao toque
obscuro
desfez-se a boca.
Lábios espatifados,
lua úmida...
Infinda,
a pele tomba
em acrobacias subterrâneas.
Tantos dedos,
tantos pêlos...
Pendendo do corpo
o outro corpo
(insustentável encaixe).
Olhos:
balançam em colapso
na beirada do inferno.
Pelas pernas
- de repente -
a mosca,
em pousos suicidas.
Inútil:
nada mais
deteria o caos.

 CASTIGO 

Desencaixo-me displicente.
Esvaziei-me, enfim.
Teu corpo
ainda queima,
tua mão ainda afaga.
Jamais
o prazer fora tão perverso.
Escondo meus lábios
atrás do batom.
Teus olhos
- canibais marinhos -
começam a se desfazer.
Não consigo te acompanhar.
És tão tolo...
Ainda me engasgo
com um último orgasmo.
Venci.
Sou aquela
que pela primeira vez
amas.
Mas a noite se esvai.
Sei que vais me tocar:
deixarei?
Não quero me amarrotar.
Tua boca me implora,
só que as estrelas se apagaram.
Vou-me embora
para nunca mais...
Se fosse amor,
não acabaria.


 INSÔNIA 

A porta ecoou
o adeus.
O homem se encolheu.
As mãos
ainda lambuzadas de suor.
Entre os lábios secos
o nome maldito,
o gosto do seio.
A dificuldade
de abotoar o corpo.
Deitou-se
sobre o membro bambo
esperando o sol nascer.


 MANHà

É sol.
Meu olhar mastiga o céu
e vai cuspindo nuvens.
O galo já não canta,
mas sua alma incomoda.
Ainda ouço o sono dos pernilongos.
A terra pulsa
e expulsa suas minhocas,
suas formigas.
Sei.
- sou a próxima a ser decomposta -
O vidro da janela
não me permite o vento
mas aborta as sombras.
Não consigo me esconder...
Aguardo.
As borboletas não tardarão:
só elas aliviam.
Não posso interromper esse parto.
E a lágrima germina
- ininterrupta -
enquanto a vida passa.
O café está salgado demais.
Quero ler o jornal do dia seguinte!
De repende,
o relógio.
Os pés bocejam no corredor.
A rotina rodopia
por detrás da porta.
Entardecerá.


 ABSOLVIÇÃO 

É muito noite.
Como jamais fora.
O grilo irrita
mas não percebe.
Todas as estrelas me escutam,
mas não tenho o que dizer.
É só esse arrepio,
esse berro do peito
dentro do coração.
Também há tulipas.
E o sono não vem.
Não virá.
Jamais voltarei a acordar.
Tudo culpa do corpo,
esse parasita que te implora.
Há barulho demais
para sonhar.
Meu sorriso perturba a escuridão
e ecoa pelo universo.
Vou rezar.
....
Deus me perdoou:
impossibilidade
de pecar.

 CÂNTICO 

Abre-te, anjo,
das asas que pendes
e rola vagaroso
entre os espinhos da coroa.
Sucumbe,
ainda tolo,
dentro do último riso
à espera do mar.
Nada cantará esta noite
- de crepúsculo inusitado -
Dos ossos que sustentam
teus olhos em sangue,
extraio,
sem cuidado,
o único vestígio
da vida decadente.
Não mintas,
ainda que a boca
gravídica
tente o suicídio.
Dá a paz
a todos os insetos
abaixo de teu olhar.
Sepulta-me
entre as pétalas
do cárcere dos lobos.
Estás certo...
Ainda que o sol
se deteriore,
sou a porta.


 PRECE 

Aranhas espatifadas
estupram as paredes.
Deus,
pregado numa quina,
espanta as moscas.
Se o corpo
- entreaberto -
escorresse um único riso,
todo o pecado pereceria.
Ajoelha!
Que nenhum beijo escape.
Que o prazer desabe.
Ainda o lagarto
vigia
e a língua vaga.
Olhos empoeirados
de homem sem fé.
É cedo:
os crimes,
os abortos
tardam.
Mais que a abelha
zonza,
o perfume irrita.
Enfim,
a mão sonda,
escava os seios,
os montes.
A morte boceja
nos lábios
e o membro prossegue.
Amém...


 ESBOÇO 

O arame calado
contornava a escuridão..
Anu pousado
em poste fraco:
sentinela hostil.
Entre cigarras mudas
sentado sobre si,
pensava-se o homem
(garrafa no colo)
Olhos nus
Olhos trincados
Olhos que se observam
quão cru é o ser.
A lua crescia
no canto esquerdo da tela.
Homem mal pintado
sorria os temores do primeiro gole
- cena íntegra -
Dava-se conta do infinito
aspirando um bocado da noite.
Mãos trêmulas
Mãos virgens
Mãos que oram
apesar da dor.
Impulso sensato:
vidro espatifado.
A via láctea
(tatuada na poça ao lado)
ficou cheia de cacos.
Um mocho voou
de uma moldura a outra.
O homem lembrou-se.
Lábios difusos
Lábios confusos
Lábios que se beijam
andróginos,
num ser completo.
Perante a solidão terna
vazou uma lágrima torta.
O homem esmoreceu:
voltou a ser buraco negro.


 VAMPIRA 

Num gesto atrevido
coloco meu corpo
em seu corpo
e esbarro em sua boca.
Do outro lado do abraço,
escondo meu medo
entre suas pernas,
mas esqueço o motivo.
Embaixo da cama:
abandono o sexo
ainda virgem
- embora úmido -.
Com os dentes
em seu pescoço,
mutilo para sempre
a inocência.
No fim da madrugada
nada resta do corpo ou do sonho:
só o sangue do vôo
do mamífero de mim.

 DESENGARRAFANDO 

Baba,
pendeu do canto esquerdo da boca,
caiu sobre mosca.
O copo,
na beirada do silêncio:
cheio de goles...
Numa cadeira esguia
dormia o homem de imbuia.
Recostada no balcão
a paixão assobiava um orgasmo cínico.
Onde estaria o garçom?
No fundo do corpo
a bebida abrigava a noite.
Estrelas de vidro
coçavam o céu...
Ah, meiga lua de farelos!
Feria a podridão da cena
(sem pena).
Era tenda em deserto.
Mas o sol
sem piedade,
escarnou a escuridão.
Aí, o cuspe pendeu
do canto direito do olho
e como lágrima sincera,
calou a multidão.


 FUNGO 

Visto meu corpo
de mácula
e lanço-me
aos bueiros.
O sexo exposto,
esparramado pela calçada.
O vinho barato
escapole pelas veias,
e contamina a madrugada.
Sinto que será
o último pigarro.
Sou todo bolor.
As rugas repartem os dias
e já não posso ver as estrelas.
Há tempos amputei coragem
e escolhi piedade.
Queria arrancar esses olhos
que já não refletem a luz do sol.
A vida é esse
eterno fermentar.
Inclino-me,
em direção ao infinito,
e vomito
o caos.


 LÁPIDE 

No tumulto do meu corpo,
no tumulto do seu túmulo,
vejo crescer a sombra do mal.
O sol desce
enquanto o ar envelhece.
Toda a Terra se voltou
à espera da dor.
Os lábios na laje,
o abraço inerte...
A tarde não cairá.
Entre as pedras
dos meus olhos,
encontro seu aceno.
As andorinhas voam
como pernilongos alegres.
Perdi as cores.
Agora,
toda a paixão
é essa poeira fina
que invade o céu.


 IMACULADA 

Meia noite:
escorrem trevas
entre os frágeis silêncios
do corpo oculto.
As teias,
nada mais são
do que lágrimas
perdidas e petrificadas.
Do limbo hostil,
verte-se bruxa
a pomba rasgada.
Nunca,
perante o estancar do dia,
desprender
a dor bíblica do equívoco.
As catacumbas,
ao fim do abismo,
enlouquecem-se de tundras
e almas eufóricas.
Na morte anfótera,
da qual anjos decaídos
já se esqueceram,
inda há o germe escuso.
Sinos e incensos
mergulham o inferno
com sua inocência tosca.
No reino
dos lábios em colapso,
a única misericórdia
- o último coágulo -
é arrepender-se
jamais.

 ERRANTE 

Caminho entre os gafanhotos.
A areia vai se aderindo
ao meu suor,
enquanto o amanher silencia.
Procuro as catedrais
do apocalipse,
onde os escorpiões
incineram seus temores.
Vou de encontro
aos ossos de sua sombra
(os roedores me protegem).
De cada rosa abandonada
extraio seu poder.
As estrelas
- vértices do insólito -
vão escapando dos meus olhos.
Aguardo:
sei que o sol não mente.
Em cada caverna árida
encontrarei seu hálito.
Montarei em cada centauro
como se fosse no seu colo.
Ainda
que todas as profecias
vertam-se em pragas,
alimentar-me-ei
com a hóstia
do seu nome.


 ENTRANHAS 

O sorriso caiu.
Entre as pétalas de mim:
o cio.
Esperma aos farelos.
A lua bóia na taça de sangue.
Entre os sopros selvagens,
tórridos toques
(sinceros como um cadáver).
Com os dedos enfiados no vento,
quero lamber a liberdade.
Já esfacelei minhas lágrimas...
Enquanto o sol
baba sobre mim,
vou varrendo minha sombra
com restos de beijos...
A esperança dormiu.
Entre os subúrbios de mim:
a dor.
Bolhas de areia,
cacos de suor...
Há bolor nas estrelas.
Eis-me pecado!
Eis-me boca!
Pouca coisa:
alfinetes incendiados.
O amor vai pingando sobre o telhado,
amargo enquanto vocábulo:
deserto parido.
A vida é um estupro:
nasci para morrer.
Renascer das cinzas,
das sobras,
das teias...
Vou lutar até o orgasmo.
A noite
arrotou.
Assim seja,
assim sangre...
Entre a poeira de mim:
o prazer.
Caroço de paixão.
Vou morrer...
Vou morrer...
Mas é só para te humilhar.
Vem...
Degola meu cheiro.
Não sou mulher,
sou distanásia.


 REITERAÇÃO 

Preciso de sua pele
sobre mim
com seus olhos
a escorrer pelo chão.
As mãos coçando meus lábios
- todos os lábios -
sob a noite (minguante)
esgasgada de dor.
Os silêncios estuprando
o cio
o tal do suor...
Os gemidos
escapulindo dos poros
pelas pernas,
pra ter
prazer:
pra ser tão carne.


 RESSURREIÇÃO 

Silêncio.
Num desviar dos olhos,
o reencontro.
Todas as artérias se estremecem.
O nome saltando dos lábios,
o espanto escorrendo pela testa.
Tantos corpos
separaram nossos dias...
Sua voz
desabotoa meu peito
e expõe lembranças.
Desde quando?
Vejo Deus
dependurado no seu pescoço.
Aguardo:
mão
e pele.
Você sorri.
A carícia torta,
a boca tonta:
tanta incerteza.
Parece a primeira vez...
Tudo é esse círculo
sarcástico
que sacode o coração.
Na mesma cama,
no mesmo altar,
comungo seu corpo
e reacendo a vela:
talvez seja páscoa.

 ABRAÇO 

O sorriso ficou suspenso.
Seu calor
se apressa.
Sinto a revoada
dos seus olhos
e o farfalhar cardíaco.
O tempo recuou.
Primeiro veio o gesto
depois o palpável.
Aguardo o impacto da pele.
Aí, a noite caiu,
porque seu corpo
é meu
(e as estrelas balançam no horizonte).


 FELÍDEO 

O dia se estanca.
Desce o infinito.
Na sombra do teu corpo
incrusto meu beijo.
Teu sorriso se ergue,
como um leão que matará
- ainda que se arrependa.
Estilhaços dos teus toques
espalham-se pelo meu corpo.
Teu olhar,
angústia cósmica,
parasita meus sonhos.
A mão,
enfim,
desata minha pele que foge.
Não se assuste com os silêncios:
todas as estrelas caíram.
Eis-me aqui,
a erguer colunas de sorrisos,
a correr pelo universo.
Os paraísos se destruíram.
Todas as pernas se abriram...
Ainda que tua boca me desafie
e que a noite jamais termine,
abraçar-me-ei em teu pescoço
pronta a partir.
Sei.
Teu nome é proibido.
Teu mundo é caos:
estás perdido em mim.
(a alma vagueia enquanto o corpo oscila)
Mesmo que nunca me ames
basta que existas,
basta que resistas.
Meu prazer é imortal.
Olhas como um gato prestes a miar.
No meio do ato
crava-se em meu seio como punhal.
Sobrevivi.


 RIO 

Eis que a pele,
undívaga e verde,
range entre meus dedos.
O lábio
incrustado de musgo
oprime minha boca.
Neste beijo tosco
imploro
a eternidade da morte...
No caule do olho,
a fenda hostil
dos meus silêncios.
Sob as escamas em sono,
a cartilagem da inocência.
O suor,
pelas curvas imprecisas,
não é mais que minha sede.
Peço,
a cada estrela trêmula,
o tormento de sua presença...
Sob a placenta fria da correnteza
peixes bioluminescentes
(de uma ternura ambígua)
desovam do seu corpo
em meu húmus insano.
Desaguar é apenas
uma súplica do amor.
Afora o mar,
nada me comove
como sua imensidão...


 ARQUEOLOGIA 

Entre os destroços do meu sexo,
ergue-se o fóssil
do teu desejo.
A ferrugem
recobre a Terra.
Teu olhar
revolve a poeira do tempo.
Colunas abertas,
pernas tombadas.
Meus dedos
escavam
o clã dos teus pêlos.
Decifro teu calor
esculpido em minha pele.
Na ruína
dos  teus poros
deixei minhas pegadas.
De que
adianta o carbono?
Não posso
ossificar o beijo...

 TRINDADE 

O tempo passa.
De dia é céu.
De noite é inferno.
Cristo,
continua de braços abertos.
O diabo e eu
de pernas abertas.
Aguardo o encontro
dos nossos membros.
Sou esse corpo,
esse cálice sem vinho.
Comungo a vida
com os camundongos.
Também sou a pomba
e o ponto de exclamação.
Deus se aproxima
e lambisca o diabo
- todo o universo gargalha -
Para que tanta dor?
É hora de rezar:
encoste a porta.
Edições eletrônicas:
  • Poros (versão eletrônica do livreto editado em 1997)
  • Poesias (Coletânea editada pela Casa da Cultura)
antologias e coletâneas
  • Presença Poética 93
    Ed. Moandy / Campinas - SP (1993)
    Poema: Confissão Vermívora (p. 87)
  • Presença Poética 94
    Ed. Moandy / Campinas - SP (1994)
    Poema: Rio (p.95)
  • Viagem da Alma II
    Centro Cultural Centauros / Campinas - SP (1994)
    Poema: Ligações Cruas (p.14)
  • Antologia Del'Secchi III
    Ed. Del'Secchi / Engenheiro Paulo de Frontin - RJ (1995)
    Poemas: Marcas, Apelo, Engarrafando (pp. 13/14)
  • Antologia Del'Secchi IV
    Ed. Del'Secchi / Engenheiro Paulo de Frontin - RJ (1996)
    Poema: Prece (p. 9)
  • Antologia Del'Secchi V
    Ed. Del'Secchi / Vassouras - RJ (1996)
    Poema: Felídeo (p. 13)
  • Antologia Internacional de Poesias - vol. 2 (p. 4)
    Movimento Poético em São Paulo / São Paulo - SP (1996)
    Poema: Cântico
  • Mescla Literária - CPAC
    Ed. Komedi / Campinas - SP (1996)
    Poemas: Vampira, Imaculada (pp. 9/10)
  • I Coletânea Komedi
    Ed. Komedi / Campinas - SP
    Poemas: Suburbanos, Castigo (1997)
  • Antologia Del'Secchi VII
    Ed. Del'Secchi / Vassouras - RJ (1998)
    Poema: Manhã (p. 11)
  • Antologia em Versos vol. 16
    Movimento Poético em São Paulo / São Paulo - SP (1998)
    Poema: Ressurreição (p. 3)
  • Agenda Poética Acesa Poesia
    Ed. Alcance / Porto Alegre (1998)
    Poemas: Abraço, Travessura, Pai, Espera (22/25 de fevereiro)


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