A Garganta da Serpente
Entrevista com Cobra entrevista com nossos autores
Entrevista com:

Joca Reiners Terron

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- Joca Reiners Terron -

Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão nosso habitante para o Balacobaco


"Quando morrer quero ser/um livro". Qual espiritismo é este? Gostaria de ser um e-book ou tem que ter papel?

Papel, claro. Livro eletrônico serve apenas para literatura que não deve ocupar espaço, como tratados sobre os peixes púrpuras com barbatanas amarelas encontrados no lago Cracatoa-à-Toa de Repimpoca da Parafuseta do Oeste, ou mesmo manuais de escotismo e subserviência para executivos.

Gosto de pensar que deve haver um espaço afetivo a ser ocupado pelos livros que escrevo, e não há afetividade contível em kbytes, por isto tem de ser em papel.

A íntegra do poema (intitulado Miss P., essa top fodel inatingível) diz o seguinte:
O contato com a senhora
não me é prazeroso:

me cato em pranto
num ponto em que, puro osso,
não posso ser o santo
que quero e, sério
zelo assim por um ser
livre, aéreo
um colosso sem crivo.

Quando morrer quero ser
um livro.
Este é o poema que abre meu primeiro livro de poemas, o Eletroencefalodrama (Ciência do Acidente, 1998). É um texto bastante simples, onde negocio com a poesia (a miss P. do título) o que lhe daria em troca (emoção, liberdade e loucura) da possibilidade de ter um livro que permaneça. Nada de espiritismos, apenas entrega e ânsias vãs por transcendência. Coisas do passado.

Você trata de assuntos escatológicos com requinte. Até que ponto deve ir o sortilégio no seu poema?

Não deve haver regras quando se trata de sexo e da exploração do corpo para o prazer, nosso ou do outro. Porém, por outro lado, claro que há limites a serem respeitados, como a vontade do parceiro ou a morte.

Mas em se tratando de literatura não deve haver travas, a imaginação deve ir ao espaço sideral. Por exemplo, em meu novo livro, Animal anônimo (Ciência do Acidente, 2002), levo o sortilégio a certo lugar distante e próximo ao mesmo tempo. Vejamos o poema:
a poesia
            é inútil
o poeta
          perigoso
isto não é
            .uma musiquinha
o cano na
            garganta

cala a boca
você não vai cantar
        não
            agora


enfia este poema
no teu cu

pronto

agora canta

Por que tem que ser velho para ganhar um Nobel?

Talvez porque pessoas grisalhas tenham mais massa cinzenta...

Na realidade, os impactos que a literatura inflige à sensibilidade humana não podem ser quantificados por prêmios ou pela academia sueca. O que realmente vale é a emoção do leitor ao ler um poema que descreve sensações com as quais ele se identifica, a vibração solitária de ver seu cérebro invadido por imagens de um outro tempo, de um outro lugar, descritas por alguém desaparecido há muito e que, mesmo assim, ainda têm o poder de transformá-lo.

Além do mais, e isso já é uma outra discussão, sempre houve e haverá literatura novíssima produzida por pessoas idosas.

E que muito provavelmente não ganharão o Nobel.

A incorporação de elementos da cultura pop enriquece a poesia?

Tudo enriquece a poesia. O que quer que seja enriquece a poesia. A poesia é onívora, tudo que ela toca, devora, e isto a enriquece. A cultura pop faz parte do mundo há mais de meio século, não há poesia possível sem tratar dessa mitologia. Marylin Monroe substituiu Vênus no imaginário contemporâneo. Então tratemos da vida com os deuses que nos restaram, aliás, deuses em muito superiores aos de qualquer panteão, pois os deuses da cultura pop meteram, mentiram, sofreram, atraiçoaram e foram traídos, de verdade. Prefiro um deus entupido de drogas como Jim Morrison do que toda a renca celestial de anjinhos assexuados do catolicismo. Pau no cu dos santos.

Com quantas metáforas se faz um poema?

Com nenhuma. Ao menos os meus poemas. Prefiro dizer cu e buceta mesmo.
A literatura precisa ser desliteratizada, transplantes urgentes de vida precisam ser feitos para haver alguma sobrevida a essa senhora, ela precisa ser aviltada, destratada, espancada, até. Descer das tamancas e sambar bonito pruma galera mais nova que espera que ela faça exatamente isto: seduza gente viva, e não defuntos caquéticos envoltos pela carapaça dos encontrinhos literários em cafés, poemas sobre o papo entre pares discutindo a morte da bezerra, quer dizer, do soneto, etc.

No poema VÔO ANTI-HORÁRIO você nos mostra algumas de suas influencias ou Ginsberg,. e.e. cumings e outros não são uma angústia da influência tão forte assim?

Não me sinto angustiado ao escrever poesia, em hipótese alguma. Escrevi meus dois livros de poemas com o maior tesão de dialogar com os poetas que curto, então foi um tremendo prazer descobrir a poesia como meio de expressão. Pelo contrário, sempre escrevi mais e melhor quando estava lendo alguma coisa que me movia, ou enquanto traduzia algum poema e assim por diante. A coisa sempre flui mais alto quando você é despertado pelos sentidos. E os sentidos podem ser alterados e aguçados através da leitura de um bom poema, um poema que transforme sua visão das coisas, da vida. A boa literatura, mais do que qualquer outra arte, tem esse poder, o poder de dar um upgrade na sua forma de pensar. De repente, depois do impacto da leitura de um texto fabuloso que tome você e transforme, abaixe o livro e erga os olhos. A paisagem adiante já não será a mesma. Os livros podem ser levados pra qualquer lugar e são generosos conosco, nos transportando pra onde bem entenderem também.

O cummings do Augusto de Campos foi uma leitura capital pra mim, e a figura e o pensamento de Ginsberg idem, porém sua poesia não muito. Dos poetas beats editados no Brasil o que mais gosto é o Gregory Corso, e deliro demais com a poesia do Kerouac, uma poesia bastante difícil de ser traduzida, ao contrário dos prognósticos correntes de que o beat é ´fácil`. Vá traduzir uns fragmentos de Mexico City Blues pra ver o que é bom pra tosse.

Qual a importância das artes gráficas na sua literatura?

Bem, sou artista gráfico por profissão, então as artes gráficas têm importância em qualquer coisa que eu faça, afinal é o meu ganha-pão. Mas vivo conflitos permanentes por me sentir dividido entre a imagem e a palavra, entre a frustrada vontade de escrever e os prazos estourados de uma encomenda qualquer me olhando lá do profundo do poço. Daí talvez haverem alguns elementos visuais no meu texto, mas penso que não sejam tão predominantes. Também reclamo de sacanagem, pois compromissos com a barriga cheia dos filhos não são apenas privilégio meu, todo artista pena pra pagar suas contas.

Você é um poeta maduro?

Sou um poeta amarelo devido à falta de sol. Isto deve confundir alguns, que podem me achar um poeta maduro, por conta desse amarelão-esverdeado da pele. Na verdade me considero um ex-poeta, e bastante imaturo. Meus interesses me promoveram a ficcionista, cansei da poesia purinha. Acho que fiz o que podia nos meus dois livros e considero meu assunto com ela encerrado, não há nada mais que a poesia possa dizer através de minha boca. Agora quero misturar cachaça de diversas e duvidosas procedências, estou preparado para novas dores de cabeça.

Como é estar presente na antologia organizada por Frederico Barbosa e Cláudio Daniel?

Acho mais que legal. Generosidade não é moeda corrente entre seres humanos, entre poetas não é diferente. Por isto ser incluído nesse time escalado pelos gente-finas e generosos Barbosa e Claudio resulta numa coisa legal, que é a vulgarização do nosso trabalho por meios mais eficazes. Sim, pois nem sempre uma edição individual atinge tiragem suficiente para circular como deveria, e há muita gente boa isolada em estados mais distantes do Sudeste, uma moçada que não têm a chance de ver seus livros enfiados na biblioteca de boas universidades, por exemplo. Essa é a principal importância das antologias e desse positivo ´desejo antologizador` surgido ultimamente.

A poesia está na moda?

Talvez. E se assim o for, conseguiremos entender a relevância recente da poesia magrinha. Deve ser em decorrência da ditadura da balança vigente no meio da moda, modelos magricelas estão na moda, então a poesia magriça também está na moda. Mas, falando sério, não há nada mais demodê que a poesia. O poeta é o sujeito naif por excelência, um primitivista com apego a palavra, um vendedor cujos artigos não interessam a ninguém. É um saco isso de bater na porta e as pessoas fingirem que não estão. Então quem deve comprar livro de poesia é poeta, os únicos que a lêem, mas nem isto rola, os caras querem receber de graça. Um não compra o livro do outro que é pra não dar moral. Aí o outro manda o livro pro um, que não responde pra não encher a bola do outro, e assim por diante. É um universo autofágico, minúsculo e mesquinho. Ocupado por seres humanos, não por acaso. E, de qualquer forma, a poesia estaria realmente na moda se caras como Sebastião Nunes ou Glauco Mattoso não tivessem de desembolsar grana pra serem publicados. Se Reinaldo Santos Neves tivesse seus poemas editados por uma grande editora, e não mofando na gaveta. A mesma coisa com Roberto Piva, Otávio Ramos e uma penca de gente boa. Poeta bom é poeta morto, diria o general Custer.

Tem algum mote? Fale sobre.

Não, não tenho. O que eu quero é mais psicodelia nessa vidinha e nessa literatura bunda.

Qual o papel do escritor na sociedade?

Chover no molhado, escrever. Mas se não encher o saco do próximo com suas susceptibilidades, vaidades, polititiquinhas, mediocridade e chatice incomensurável já vai estar pra lá de bom.

(2002)

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