A Garganta da Serpente
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- Eric Ponty -

Entrevista para a Garganta da Serpente


Eric Tirado Viegas (Ponty) Poeta, escritor, tradutor - Nasceu em São João del Rei, Minas Gerais, em 27 de abril de 1968. Poeta e escritor, tem inéditos livros de prosa e poesia para adultos e crianças. Publicações: Menino Retirante vai o Circo de Brodowski, adaptado para o teatro por Wilmar Silva, Musa Editora, 200/2004, São Paulo, integrando as coleções PNLD do governo de São Paulo e Cantinho da leitura do governo de Goiás. Pós-graduado em Letras. Consta da A Voz do Poeta.50 Poemas Escolhidos pelo Autor Galo Branco n45 (RJ). Antologia Mineira do Século XX Poesia Sempre (Biblioteca Nacional Brasil); Órion - Revista de P. do Mundo de Língua Portuguesa (Brasil/Portugal), Poesia Para Todos (RJ). As Vozes na Paisagem 2 (RJ) Trad. Cemitério marinho de Paul Valéry (A Voz do Lenheiro) - A Baleia Azul (Cortez Ed.2011). Tem inédito romance Vale dos Cavalos Crucificados. Consta do Projeto prosa da língua portuguesa 4 ano da editora Saraiva Poesia Para Todos (RJ), Dimensão (MG), Babel, Ato Revista de literatura(MG), DiVersos (Portugal), O Achamento de Portugal (Brasil/Portugal), Antologia Mineira do Século XX de Assis Brasil (RJ Imago Ed.) Jornal da ANE (Brasilia) Jornal Rascunho (Paraná)Compôs a letra do lied de Alexandre Schubert (RJ) a "Salmico Betsaida" menção honrosa no Concurso Música Brasileira de Contrabaixo, estreou no Congresso Universitário em Indianápolis nos USA. Revelou tradução inédita de Fernando Pessoa (Folha/SP). Integrante na Terças Poéticas (MG) do Palácio das Artes. Autor dos Pompas de Abril (inédito) e Lamentações dos Emboabas (inédito) Membro da Utopoesía, Literacia. Autor do Réquiem em fuga em Sol Maior para Gonçalves Dias. Tem no prelo dois livros A Poesia Completa de Paul Valéry pela editora Hedra e Cinquenta Mestres da Poesia pela Musa Editora todas duas de São Paulo.

1) O que é poesia?
Uma pergunta deveras complexa. Depende de que escola está filiado. Todos poetas antigos de hoje usaram recursos da escrita quase iguais, isso vale François Villon ou Bashô ou como para menino que está começando a fazer poesia no Nordeste vai depender do cabedal e do conhecimento que tem em mãos e da técnica que utiliza isso definirá a qualidade que utiliza. A poesia é linguagem suporta tudo o tempo e as escolhas que fazem a seleção da poesia.
2) Todo tradutor é um traidor como define a famosa epigrafe italiana?
Essencialmente poesia é intraduzível pois somente poeta com seu vocabulário e sua visão fazem a poesia. O tradutor é um aliado ou inimigo pois viabiliza que poema de uma determinada língua seja conhecido por outra língua. A traição depende do tradutor, do conhecimento de sua técnica que possa ser similar ao que poeta utilizou. Por exemplo, vou dar soneto" A Sentença do Justo" de Sor Juana Inés de la Cruz uma leitura em português experimental:

La Sentencia del Justo

Firma Pilatos la que juzga ajena
Sentencia, y es la suya. ¡Oh caso fuerte!
¿Quién creerá que firmando ajena muerte
el mismo juez en ella se condena?

La ambición de sí tanto le enajena
Que con el vil temor ciego no advierte
Que carga sobre sí la infausta suerte,
Quien al Justo sentencia a injusta pena.

Jueces del mundo, detened la mano,
Aún no firméis, mirad si son violencias
Las que os pueden mover de odio inhumano;

Examinad primero las conciencias,
Mirad no haga el Juez recto y soberano
Que en la ajena firméis vuestras sentencias


Minha tradução tentou respeitar literalmente o significado original do soneto de Sor Juana Inés de la Cruz, mas só em português a métrica ditou suas regras, o que no espanhol estava metricamente correto em português modificou o metro ficando assim:

A Sentença do Justo

Afirma Pilatos que julga alheio
Sentença que és sua! Ô caso que é forte!
Quem acredita afirmando alheia morte
O mesmo juiz que nela se condena?

A ambição de si tanto se desfez
Que com vil temor cego não se adverte
Que carga sobre si a infausta da sorte
Quem justo sentencia a injusta pena.

Juízes do mundo, possuis na sua mão
Há um não afirmeis que olhem tais violências
As que podem mover ódio inumano.

Examineis primeiro às consciências,
Olhem não faça juiz reto e senhor
Que alheias afirmeis vossas sentenças.

Essencialmente é a mesma coisa e não é. Meu experimento é uma aproximação do original não o original com as qualidades intrínsecas da autora mexicana. Isso vale para todas línguas. Outro exemplo é o aclamado soneto de Charles Baudelaire Há uma passante no qual temos em Baudelaire:

À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit ! - Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité ?

Ailleurs, bien loin d'ici ! trop tard ! jamais peut-être !
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais !

- Charles Baudelaire Aqui traduzido por mim para A Garganta da Serpente em dodecassílabo em versos com rima:

Há uma passante

Rua sobre mim rugir som ensurdecedor.
Alta, esbelta, em pesado luto, dor majestosa,
Uma mulher passou, com uma mão faustosa
Levantando, balança a debrum saia ardor;

Ágil e graciosa, perna era quão estátua.
Tensa quão dum delírio, qual beber passam
Seu olhar, céu livor onde o clarão abrolhar,
A doçura nos encanta e o prazer mata tua.

Um lampejo ... então noite! Beleza grão vez
Por cujo olhar repente eu renasci que sou,
Não te verei mais antes ultravida dos dias?

Alhures, além aqui! Mui tarde! Jamais talvez
Porque não sei onde fugiu, não sabe onde vou,
Ó tu eu teria amado, ó tu que compreendias!


A beleza contida no original e suas significações são intraduzíveis, no caso, só podemos fazer uma aproximação do conteúdo não da imagética da metáfora baudelairiana
3) Quanto a questão do aprendizado da métrica?
É uma questão fundamental, por anos ignorei esse atributo fazendo poesia livre. Ou seja, pura experimentação no nada.

A métrica dá ao poeta conhecimento do ritmo, do significado do icto a ser usado num poema é uma compreensão arquitetônica como na música clássica ou no ballet clássico, pintura à óleo clássico.

Poesia livre é um discurso de prosa. Manoel Bandeira ensinou corretamente que não existe verso livre, criou uma metáfora belíssima para verso moderno " verso cativo", ou seja, poeta tem de ter conhecimento da métrica para fazer verso isto vem desta poesia grega, romana ou mesmo bíblica.

Vou dar dois exemplos de sonetos alexandrinos. Primeiro o consagrado soneto "Creio" do poeta simbolista Emiliano Perneta do qual expressa sua religiosidade, tanto quando forma e conteúdo constituem uma unidade:

Eu creio. Pude crer. Ah! Finalmente pude,
Rompendo das paixões o espesso torvelinho,
Vibrando de prazer as cordas do alaúde,
Ver a estrela da fé brilhar em meu caminho!

E sinto-me tão bem dentro deste alvo linho,
Que até me refloriu a graça e a saúde;
Ando quase a voar, sou quase um passarinho,
E penso que voltou a flor da juventude...

Que doirada ilusão! Que divina loucura!
Só me arrebata o olhar a luminosa altura,
Onde fulgem de amor todos os astros nus...

Beijo embriagador! Oh! Fogo que me abrasas!
Quanto me faz febril a ideia de ter asas,
E de poder fugir para a infinita luz!

Agora vou dar exemplo do soneto alexandrino de minha lavra inspirado neste soneto Emiliano Perneta que denomino de Mãe, que é uma profunda homenagem ao Poeta e as mães:

Mãe creio. Pude ver. Ah! Enfim tu lhe podes,
Brotando das paixões maciço lençol linho,
Vibrando de prazer os cordões dos alaúdes,
Ver a fortuna da fé fulgir em meu caminho!

E voo-me tão bem dentro deste alvo linho,
Que até me redimiu a graça na sua saudade;
Ando quase a olhar, sou quase ave sem ninho,
E pensar que voltou a dor da juventude...

Que passada ilusão! Que sublime loucura!
Só me arrebata o olhar a luminosa alvura,
Onde fulgem livor todos os astros nus...

Roço embriagador! Oh! Chamas que me abrasas!
Quanto me faz senil a ideia que tu passas,
Não de poder brilhar ao infinito conduz!

Nos dois exemplos tanto como forma e conteúdo foram moldados pelo conhecimento da métrica, tanto o icto fundamental ao alexandrino na sexta silaba da contagem métrica quanto da rima que perfazem os dois temas.
4) Como foi o trabalho de seleção e de tradução dos Cinquenta Mestres da Poesia que está no prelo?
Extremante penoso, pois, tive de conhecer à tradição e cabedal de seis línguas perfazendo mais de 700 anos de Poesia. No fundo foi uma formação profundamente poética e literária onde percebi o diálogo intermitente entre as culturas influenciando umas às outras criando uma teia de textura de significações culturais.

O processo de significação é desencadeado pela interação estabelecida pela leitura ao buscarmos estabelecer-lhe à forma de inclusão, pondo como componentes essas condições de produção da leitura, e a essência da poesia alcançadas pelo texto e do seu leitor dentro da historicidade e contexto (tradição literária) que essa leitura da escritura ocorre dentro do silêncio que perfaz leitor. O leitor está circunscrito a fazer sua história de leitura dentro do espaço que o circunscreve na sua ação da compreensão do enunciado da escritura (achar seu viés na tradição) a que ele se propõe a ater-se dentro do silêncio e a reflexão.

Por exemplo, Guido Cavalcanti que foi um importante poeta italiano. Oriundo de uma nobre família guelfa branca que, em 1260, foi arruinada pela derrota guelfa na Batalha de Montaperti, entre as oponentes Florença e Siena - cuja obra Rima, aqui o soneto II traduzido por mim "Avete 'n vo' li fior e la verdura", onde praticamente lança à tradição do soneto, pois é o primeiro soneto de sua obra, está a semente de Dante e Petrarca e Baudelaire.

Vós atendes da flor desta verdura
E que luz ou é boa a olhar-te cara;
Sol brilhante mais do que sua figura
Quem Vós não vedes, mas não vale raro.

Neste mundo não há criatura que alça,
Sim cheia de graça nem de prazer
E aquele amor é de temida, afiança
Vossa graça e tanta tem só bel-prazer.

Mulheres que fazem da companhia
Assim amo todas que é por vosso amor
Assim lhes prego por vós cortesia.

O que mais pode torná-la honra mais,
E entredita cara vós senhoria
Porque tudo que sente ainda mais
5) E a Poesia Completa de Paul Valéry que está no prelo da editora Paulista Hedra, como foi o processo se deu?
Paul Valéry em "Ideia Fixa" nos diz o seguinte que serve para abordar o meu projeto literário, que foi feito por muitos percalços e tormentos ao longo de todos desses 18 anos desde que revolvi por curiosidade traduzi-lo em versos livres num resultado desastroso que não merece mais ser mencionado por mim; mas vamos a essência que nos diz Valéry: "Me sentia preso de grandes tormentos; certos pensamentos muito ativos e agudos me danavam ao resto da mente e do mundo. Regressava há um mais perdido de todo aquilo que pudera distrair-me de meu mal. Ao que se soma a amargura e humilhação de sentir-me vencido pelas coisas mentais, é dizer, feitas para o esquecimento. A classe da dor que sente um pensamento por uma causa aparente cultiva o pensamento mesmo; e, desse modo, se engendra, se eterniza, se reforça a si mesmo. Há um mais: em certa maneira se aperfeiçoa; se fazendo cada vez mais sutil, mais hábil, mais poderoso, mais inatacável. Um pensamento que tortura a um homem escapa as modalidades do pensamento, se volve outro, é um parasita. "

Esse parasita que se refere Paul valéry foi o mesmo que me volveu a traduzi-lo a dedicação de mais de 18 anos. O resto não vale a pena mencionar.
6) E sua relação com François de Malherbe, um dos poetas malditos, e um poeta preferido de Paul Valéry.
François de Malherbe (Caen, 1555 - Paris, 1628), foi um poeta francês, dissidente da Pléiade. Sua família tentou educá-lo dentro de normas protestantes, encaminhando-o para a profissão do pai (que era conselheiro presidencial de Caen). Mas, já na Universidade de Basileia e na Universidade de Heidelberg, Malherbe percebeu que não tinha qualquer inclinação para a magistratura bem como para o protestantismo. Deixou a família em 1576 e procurou a proteção de Henri d'Angoulême, filho de Henrique II, governador da Provença, do qual tornou-se secretário. Em 1581 casou-se com Madeleine de Cariolis, filha do principal juiz do Parlamento de Aix. Após a morte do governador da província, retornou à Normandia, onde publicou seu primeiro poema em 1587, considerado medíocre: As lágrimas de São Pedro. Em 1595 Malherbe encontra-se novamente na Provença e inicia-se um período decisivo para sua formação, especialmente por sua amizade com o filósofo estoico Guillaume du Vair e do erudito Nicholas Claude Fabri de Peirsec.Em 1560, um ode à nova rainha Maria de Medici torna-o mais conhecido. Em 1605, com diversas recomendações, Malherbe foi a Paris, onde tornou-se poeta da corte. Escreveu peças de circunstância, odes, estâncias, canções e sonetos. É considerado o introdutor do rigor na poesia francesa, exercendo influência sobre os grandes clássicos do século XVII. Reuniu ao seu redor um pequeno grupo de discípulos, entre os quais Racan e Maynard. Destacou-se também como crítico violento. Em 1626, seu filho Marco Antonio foi assassinado. À procura de justiça, seguiu Luis XIII para La Rochelle, onde adoeceu e veio a morrer pouco tempo depois.

Eu estudei o rigor na poesia francesa com François de Malherbe apreendendo métrica francesa com ele, eu traduzi vários sonetos dele, um especial para A Garganta da Serpente.

XXV*
A Mgr LE CARDINAL DE RICHELIEU
(1627)

A ce coup nos frayeurs n'auront plus de raison,
Grande âme aux grands travaux sans repos adonnée ;
Puisque par vos conseils la France est gouvernée,
Tout ce qui la travaille aura sa guérison.

Tel que fut rajeuni le vieil âge d'Éson,
Telle cette Princesse en vos mains résinée
Vaincra de ses destins la rigueur obstinée,
Et reprendra le teint de sa verte saison.

Le bon sens de mon roi m'a toujours fait prédire
Que les fruits de la paix combleroient son empire,
Et comme un demi-dieu le feroient adorer;

Mais voyant que le vôtre aujourd'hui le seconde,
Je ne lui promets pas ce qu'il doit espérer,
Si je ne lui promets la conquête du monde
François de Malherbe

Aqui minha tradução em alexandrinos que não está à altura do Poeta:

Golpe trouxe pavor não tem mais razão pique,
Grã alma sua grã lavra sem repouso dedique,
Pois por vós conselho à França está a governar
Tudo isto que trabalho aura sua fez curar.

Talvez fez renovar velha idade d´Éson,
Tal qual príncipe em vossa mão dar afronta,
Vencer rigor de gênio destino dar conta
E melhorar a tez sua verde estação bourbon

Bom sentido do meu rei sempre faz predizer,
Que frutos paz dão seu império sem parar
E porque meio Deus forte adora dizer.

Mas vidente que vosso hoje ao do segundo
Nem ele prometer passar deva esperar
Se não lhe prometer ele a conquistar mundo.
7) "Com quantas metáforas se faz um poema?
Depende da qualidade do poeta como foi demostrado nesta entrevista.
8) "Tem alguma epígrafe que o acompanhe?"
"Você tem que ralar, se não provar, pelo menos, do desespero, uma vez que, todas as coisas estão marcadas, o trabalho é menos chato do que diversão. " Charles Baudelaire
9) "Qual o papel do escritor na sociedade?"
Respondo à pergunta com última da quinta citação de Coração Despido de Baudelaire: Além disso, se não a soberba, proíbe a humildade cristã a cruz. Avaliação a Deus. Assim, a minha vida tem um propósito. Que propósito? Eu não sei.

Portanto, não sou eu quem distinguiu.

É alguém mais sábio do que eu.

Devemos, portanto, rezar para que alguém me esclareça. É o partido do mais sábio.

Os Dândis devem aspirar a ser sublime sem interrupção; ele deve viver e dormir diante de um espelho.
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