A Garganta da Serpente
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O papel da poesia

(Ricardo Peres)

Triiiiimmm...

É o ruído que interrompe a pausa de José Feliciano da Silva.

Institivamente, se levanta e vai, zig-zagueando, até o banheiro. Joga água contra os seus olhos que ainda estão com a visão obscura, mesmo depois dessa ação, não consegue abri-los totalmente, em seguida realiza as necessidades fisiológicas sem abrir os olhos. A cozinha é o próximo local onde pára para tomar a rotineira caneca de café sem leite, comer seu pão murcho sem manteiga mergulhado no amargo líquido negro. Devida à costumeira pressa e o habitual atraso, embrulha uma maçã em papel quase limpo para comê-la no caminho.

Feliciano coloca o uniforme sem prestar muita atenção, pois é o que faz todos os dias. Depois, é guiado até a porta da rua, esbarrando os braços calejados nos cantos da casa de tal forma que parece não enxergar para onde vai. Todo esse processo matinal é feito para realizar um trabalho que muitos fazem, mas ninguém quer fazer.

Sai do casebre localizado na Rua J.T. Bostoso sem poder avistar os primeiros raios de sol. Começa a subir a rua em direção ao terminal para apanhar o ônibus, uma caminhada de meia hora. Finalmente, chega ao Buracão, apelido que o bairro, onde se localiza o terminal, recebeu.

Feliciano anda com passos pesados, apressados, desordenados, exatamente como antes. Mas, subitamente, assim como que por um milagre, no meio do caminho havia um livro de poesias, o qual só percebe sua presença quando esbarra nele. Ele o agarra, mas não demonstra interesse sobre ele. Mesmo assim, o guarda. O milagre ainda continua quando encontra um assento desocupado para seu pouco corpo porco dentro do lotado veículo que o levaria para seu destino. A firma onde realizava seu trabalho não possuía registro e estava situada na Rua Cel. F. Merdeiros, uma área com muitas firmas e trabalhadores do mesmo ramo.

A rotina tentou, em vão, obrigá-lo a cochilar batendo a cabeça contra o vidro dentro daquele veículo que há muito tempo não recebia uma lavagem externa devido à falta de chuva, já que a sua lavagem interna nunca ocorrera. A curiosidade o provoca a olhar o material encontrado. Após muitas viradas no material, decide abri-lo aleatoriamente. Ele o olha, decifra seus códigos, conhece seus traços, mas não consegue compreendê-lo. Depois de algum tempo, Feliciano agarra sua maçã, retira o papel que a cobre e a feri com a boca, destroçando-a com seus maxilares. Então, numa sequência ilógica de ações e movimentos, Feliciano lia e também mordia, mordia e lia, lia e mordia, mordia e lia... Sem saber qual ordem seguir ou qual ação aplicar em cada objeto em suas mãos. Começou a confundir-se quando mastigava com a boca aberta e o suco escorria entre seus lábios. Mordeu com mais ferocidade e mastigava com mais velocidade com uma sensação perturbadora e inovadora que o incomodava e o irritava. Naquela fúria desesperada por algo desconhecido, um pedaço irregular do fruto ficou preso em sua garganta, imóvel, dificultando sua respiração. O membro sobre o qual estava apoiado o livro tremia e não podia mais acompanhar as linhas. Olhou em volta, sentiu-se pela primeira vez um estranho, pois não conhecia mais o lugar por onde passou a vida toda. O veículo fechado o abafava. As pessoas que o espremiam incomodavam Feliciano. O mau cheiro penetrou em suas narinas como ácido queimando. O sol forte da manhã penetrava em seus olhos ofuscando-o. Cuspiu os pedaços de maçã de sua boca, porém não conseguiu mover a forma irregular atracada em sua garganta.

Feliciano levantou-se de supetão e empurrou todos que estavam na sua frente, nem ouvia as ofensas que os passageiros lhe dirigiam. Deu sinal para descer do ônibus e começou a bater na porta com os punhos fechados, até que o motorista irritado parou o veículo, abriu a porta e resmungou palavras que Feliciano não prestou atenção. Ao descer do ônibus, olhou para todos os lados sem reconhecer o lugar onde estava. Rodopiava, girava, gesticulava, porém não conseguia soltar nenhum som de dentro de si que há muito tempo parecia estar preso em seu interior, mas que só agora queria desprender-se. Todavia, o pedaço do fruto que comia ainda permanecia estático, não fora digerido.

Feliciano não sabia qual direção tomar, por isso sentou-se na calçada no local que desembarcara com uma sensação estranha que não conseguia entender, pois era a primeira vez que isso acontecia com ele. Feliciano esperou, sem saber o quê, mas esperou. Feliciano esperou, esperou, esperou, não comia, não bebia. Não porque o fruto ainda o entalava e o incomodava, deixando-o apenas respirar, mas porque não sentia fome nem sede. As lembranças de tudo o que ocorrera permaneciam em sua mente inquietas e agitadas. Após algum tempo, Feliciano começou ter reminiscências de sua vida, então se lembrou de quando era jovem, e refletiu sobre tudo o que ocorrera até aquele instante. Sem compreender nada, passou a mão no peito para retirar uma aflição que também permaneceu imóvel. Olhou para cima e avistou as pontas dos edifícios e sem pressa observava-os com mais intensidade, até que pode ver as nuvens movendo-se no céu, depois fixou o olhar e enxergou o Sol reluzente sobre todos. Ouviu as pessoas e os carros apressados os quais passavam à sua frente e incomodou-se com seus ruídos, então fechou os olhos e prestou atenção no barulho do vento que soprava em seus ouvidos, mas um mau cheiro invadiu suas narinas fazendo remexer a cabeça para os lados. Quando abriu os olhos, sentiu vontade de chorar, porém seus olhos já estavam secos e, assim, percebeu que era muito tarde, demorara demais. Olhando para frente, viu a placa sinalizadora, indicando a direção correta para quem procurava a Estação Paraíso, então Feliciano sorriu e, numa tentativa inútil, tentou erguer seu corpo. Feliciano continuou olhando para a placa e a direção que apontava, fechou os olhos e sorriu aliviado porque finalmente o fruto descera de sua garganta e atingira o estômago onde poderia ser digerido, caso Feliciano tivesse mais algum tempo de vida.

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  • Publicado em: 20/04/2017
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