A Garganta da Serpente
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Tereza e Rembrandt

(Geraldo Crespo)

Ainda não havia prenúncio de chuva, mas Tereza garantia que iria chover. Deixei a janela aberta e do sofá fiquei contemplando uma nesga de céu que parecia um quadro de Rembrandt. A tarde, como todas as tardes me deixam melancólico. Fico pensando em amigos distantes, em cidades que nunca vi, em coisas que nem sei se existem.

Vejo que algumas nuvens cinzentas começam a pichar o quadro de Rembrandt. Parece que Tereza tinha razão. O vento ainda quente de um dia de sol, sopra a cortina da sala e parece trazer um cheiro de maresia, embora o mar não seja tão próximo. A minha expectativa de visitar a serra do Frade parece que vai martelar por mais um fim de semana. Serra e chuva não é bem o meu perfil embora meu jeep 1964 aguente bem o tranco.

Começa ao longe um estrondo e sinto que a minha amiga não errou. Não sei de onde ela tira a certeza de um dia de sol ou chuva se nunca estudou meteorologia, nem identifica um cúmulo- nimbos. Eu que me meto em pescarias malucas e como todo pescador tem a mania de querer prever o tempo. Vento isso, nuvem aquilo, lua cheia e quase sempre nada de peixe. Mas não desanimo e sempre tiro um tempo pra essa sagrada distração.

O telefone toca e mal atendo já escuto uma voz quase sarcástica: "Eu não disse?!!!. Vai ser um pé d'água daqueles!" Sou obrigado a concordar e me render a sábia opinião de Tereza, pois ao norte as nuvens parecem formar um tapete negro no céu e uma vez mais ela acertou de primeira. O quadro que eu via pela janela já havia se desfeito. Agora mais parece um borrão negro a se estender por todo horizonte. Tereza despede-se e pra curtir com minha cara mais uma vez repete: "Eu disse..."

Para deixar o tempo correr, vou à cozinha e encho uma taça do tinto Santa Helena e me atiro novamente no sofá, enquanto lá fora o leão já começa a rugir e risca o céu de uma tarde que já parece ser noite. Sinto que a maresia que pairava no ar, muda para um cheiro de relva molhada e percebo que é hora de fechar a casa. As gotas de chuva batem na vidraça, deixando embaciada a visão que tinha da janela. Pobre Rembrandt...

Me dou conta que não poderei sair pois a chuva aumenta com a mesma velocidade em que bebo o vinho, embora não seja elegante, sorvo uma taça em segundos e sinto o peito aquecer como o sol que surgiu pela manhã e desapareceu no fim da tarde para concretizar a previsão ou profecia de Tereza. Retorno a cozinha e adivinhe pra que?...Enquanto lá fora a chuva desaba, relâmpagos pipocam pelo céu, eu perco toda a esperança de sair e perambular pela cidade.

A minha tarde finda e deixo a sala mais uma vez. Abro a geladeira e vejo um pedaço de provolone esquisito que corto em cubos desformes e retorno ao sofá. Horas depois acordo suado e ainda ouvindo trovoadas pela madrugada. A minha coluna parece um arco e quando levanto saio pisando nos pedaços de provolone pelo chão da sala. Odeio Tereza.

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  • Publicado em: 26/05/2017
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