A Garganta da Serpente
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Um Casamento Alucinante

(Assis Arruda)

Vinte e quatro anos, recém-saído de uma faculdade de Publicidade, em verdade, mal-cursada; boa aparência e um futuro incerto que por motivo de pretensa esperança insistia em classificar “promissor”. Pouco dinheiro no bolso, muitas ideias na cabeça, trabalhando ocasionalmente, e muitas vezes, mal pago. Uma de suas ideias - talvez a pior - era o casamento. Fazia anos estava de namoro com uma jovem que frequentava a mesma igreja que ele. Ela poderia não ser a mulher de seus sonhos, mas sabia engomar, lavar louça, varrer e cantava no coral. Depois de tantas rejeições e de muito sofrer por amor, encontrar alguém capaz de suportar seus tiques nervosos e aceitar condições de vida bem modestas, ainda que quanto a isso ele tentasse disfarçar, era quase um milagre. Mulher nenhuma o quisera até então, e se não fosse a mãe para o incentivar e trabalhar sua auto-estima, teria se conformado com uma vida de solteiro. Quem sabe teria sido melhor assim.

Mas chegara o dia, e já era noite, a cerimônia começaria dentro de pouco mais que uma hora. Ele estava bonito, bem arrumado, cabelo escovado, limpo e cheiroso. A noiva veio depois, parecendo uma boneca de porcelana. Raquel, ou Jurubeba, como era mais conhecida, herdara alguns traços que só poderiam ser dos avós ou de algum parente distante. Não que fosse uma beldade, mas em pouco ou nada lembrava a aparência rude de seus pais, típicos roceiros do interior. Também, desde pequena fora morar com os tios na capital, adquiriu modos exemplares e a mesma fé dos tutores. Em todo o tempo de namoro, de Assis nunca vira os pais da sua agora noiva. Conhecê-los pela primeira vez estava sendo uma experiência chocante.

Seu Pontifácio Inácio Jurubeba trazia uma arma de fogo, mais precisamente uma espingarda de caça, e achou lugar no primeiro banco da fila do lado esquerdo, reservado para os convidados da nubente. Sua caranca por si só era capaz de fazer de Assis suar e bambear em tremeliques. Do pouco que sabia dele, duas informações considerava como relevantes: ele já matara quatro lá na sua terra natal, e era dono de um boteco cujo nome Coleguinha Jurubeba parecia contraditório. Todos diziam que “coleguinha” ele não era de ninguém, a não ser que fosse do diabo. E quanto ao diabo, sua mulher se assemelhava ao próprio, mas chupando manga, e banguela. Difícil mesmo era dizer qual dos dois era o pior, pois a mulher além de mais feia que o marido, tratava mal os empregados, tinha pouca educação e fama de ranzinza. Corre mesmo o boato de que lá nas suas terras o casal é conhecido como Durango Kid e Madame Satã. Mas isso, infelizmente, não era tudo.

Dona Betinha, a madrinha de casamento, chegara pouco depois, esbaforida e aos berros, contando uma história bizonha difícil de se entender.

Socorrooo!!! Ai mu Deus, tem um enxame de bicho medonho correno pra cá!!! Cada qual um mais horrive que o otro! Tem uns zoião assim esbugaiado, uns dente grande e pôde, e os fi duma égua ainda fede que nem cria de jumenta, parece uns urubu estragado!!!

De Assis tentava sinceramente entender esta última parte, “ os fi duma égua ainda fede que nem cria de jumenta, parece uns urubu estragado” , achando-a inconcebível, mas não teve tempo para muitas reflexões, pois o que já estava ruim pioraria ainda mais, bem mais, naquele mesmo instante. A balofa Dona Betinha, parada no portal da entrada principal não parava de gritar e insistir que fechassem imediatamente todas as portas, mas ela mesma ficava ali, entupindo a passagem como um sacarrolha na boca de uma garrafa; de repente, uma mão esguia e pútrida veio detrás dela, agarrou sua cabeça, e com um movimento brusco esticou seu pescoço, no qual se encravaram as mandíbulas de um cadáver. As pessoas no interior da nave levantaram-se com um grito de horror, e muitos não resistiram ao ímpeto de correr. Enquanto alguns iam para o mais interior do edifício, outros fugiam pelas portas secundárias, sem saber que assim caminhavam direto para a morte. Todavia os seres putrefatos avançavam como um grande exército ao redor daquele recinto no qual se abrigavam os sobreviventes. De Assis entendeu isso e resolveu agir; tomou a arma do sogro, que ainda nem saíra do lugar, e só esboçava uma expressão de dúvida e aborrecimento com tanta balbúrdia - destemidamente investiu contra os mortos-vivos, fazendo-os recuar a tiros. Cada bala saía com um estampido reverberante, e o efeito era não menos poderoso: as criaturas do inferno cambaleavam e tombavam violentamente, soltando gemidos macabros como se numa sinfonia satânica no início da noite. A custo, de Assis conseguia repelir os invasores, mas estes também logravam algum êxito, tendo arrastado para fora um certo número de vítimas, sem contar os que adentraram o local em busca de presas fáceis como uma velha senhora, que todos a conheciam por um testemunho escandaloso de uma cura de prisão de ventre, o qual rendera boas gargalhadas, além de um mau-cheiro insuportável e trabalho extra da faxineira, que teve de lavar o banco e todo o trajeto que a velha fizera na ocasião.

— Fechem as portas, rápido!- repetia de Assis, quando enfim pudera livrar as entradas da presença nefasta das criaturas.- Vamos, fechem as portas!

Como ninguém o ouvisse, ele percebeu uma única solução: teria de trancar todas as portas sozinho!

Correu apressadamente para a esquerda, tropeçando entre as pernas dos bancos, mas chegou a tempo de passar a tranca sem maiores problemas. Voltou-se com um suspiro para dar de cara com a turba que novamente reinfestava a porta da direita. Retornou para lá sacudindo a espingarda no compasso de uma saraivada de balas; a massa tornou a recuar com força, alguns desabavam no umbral, definitivamente mortos. Na tentativa tosca de adentrar a igreja eles vacilavam e caíam sobre a pilha de moribundos, mas não desistiam de se esgueirar uns pelos outros, procurando cada qual vencer a porta primeiro. De Assis usava toda a sua habilidade como atirador adquirida em anos de jogatina de Counter Strike para não errar um tiro mesmo sem fazer pontaria; indignava-se quando não acertava prontamente na cabeça, o único ponto vital dos mortos-vivos. Sabia disso porque assistira George Romero um sem-número de vezes e sempre sonhara em participar de uma produção do gênero. Bem, estava tendo a sua chance.

Agora só restava a última, a porta principal. Do lado de lá uma multidão se espremia na passagem e podia-se ver que os primeiros já andavam pelo recinto, assustando os convidados da cerimônia. Em meio a choros e manifestações de desespero, a maioria abandonava a nave e fugia para a secretaria e a galeria, deixando o rapaz só no combate aos zumbis. Implacável, ele não arredava dedo do gatilho numa luta injusta e sem trégua. Abateu um a pouco de jantar um menino na escada; outro maldito contornava uma sequência de bancos em direção ao corredor da lateral. De Assis o derrubou antes que chegasse lá.

Uma turba realmente grande disputava a passagem, e ele chegou a pensar que não poderia conter a invasão. Nojentos e contagiosos, os diabos traziam as roupas coladas à pele em avançado estado de decomposição, o que indicava já terem sofrido a mutação há um bom tempo, pelo menos um dia. Contudo só agora ele tomava conhecimento da aberração, quando esta se insurgia pela porta da igreja, justo no dia do seu casamento! E tudo que ele queria era ser uma pessoa normal, com uma vida comum, uma esposa, filho, casa... Se contentava em ser medíocre, em ser assalariado, passar por privações, não ter um plano de saúde com cobertura para toda a família, desfrutar poucas horas de lazer, ver as compras se escassearem dez dias antes do final do mês... Seria pedir demais querer ser feliz, ter um lar abençoado onde todos vivem em perfeita harmonia? Por outro lado, morrer ali não deveria ser tão ruim. Até porque não lhe custava nenhum centavo, mas viver sim. Não obstante, o seu instinto de sobrevivência falava mais alto. Além de quê, não queria ser devorado por zumbis com dentes encardidos e um corpo fétido vagando por aí sem destino. Isso era decadência demais até para ele.

As balas se esgotaram e ele ficou parado no meio da igreja, verificou a munição para constatar o vazio; quando levantou os olhos deparou-se com um morto-vivo bem na sua frente, a um passo de tocá-lo. Ele cerrou as pálpebras em sinal de medo, fez uma careta de dor e aguardou a mordida do bicho. Uma lâmina afiada abriu caminho entre uma porção de miolos podres. O zumbi caiu. O algoz guardou a faca ensanguentada e arrancou com violência a espingarda das mãos do genro. Municiou-a, preparou o tiro e disparou para o teto.

— Fora- ordenou ele, terrível. - Já!

Como se ouvissem a voz do Príncipe das Trevas em pessoa, as criaturas se apressaram em deixar o local. Os maiores punham os menores sobre as costas e saíam de fininho. Por onde quer que se visse, os mortos ambulantes davam gritinhos de medo e levavam as unhas que não tinham ao dentes tremelicantes. Corriam todos para a porta, assustadíssimos, dizendo coisas do tipo “Manhê!” e, “O último a sair é uma galinha desdentada!”.

Seu Pontifácio caminhou até a entrada principal, fechou-a e passou a tranca. Fora a coisa mais fácil do mundo. De Assis não acreditava naquilo. Devia haver algum engano; esqueceram de lhe explicar qualquer coisa naquela história. Que diabos estava acontecendo?, ele pensou. Nem Darth Vader poderia ser tão convincente.

De Assis conteve o nervosismo e esforçou-se para dizer estas palavras quando o genro voltava percorrendo o tapete vermelho em sua direção. -Caramba! Valeu, hein?

O homem, impassível em seu olhar, ergueu a arma e atirou. A bala estourou no peito do rapaz, lançando-o ao chão. Depressa a mãe e a noiva, escondidas atrás do altar, foram socorrê-lo.

— Ninguém toma a minha espingarda sem pedir permissão - justificou-se Seu Pontifácio, indo sentar.

— Meu filho, meu filho! – Dona Irene sacudia o infeliz e dava tapinhas em seu rosto tentando reanima-lo. Ele tossiu e depois se contorceu de dor.

— Eu ainda tô vivo? – disse.

— Meu pai usa munição de sal grosso. Atordoa mas não mata - explicou Raquel Jurubeba.

— Vai dizer isso pros quatro que ele mandou pra cova lá no interior - retrucou Dona Irene, impaciente.

Sentaram-no num banco; ao seu redor chegavam muitos que estiveram escondidos em algum lugar nos últimos minutos. Em poucos instantes, apinhava gente cochichando de todos os lados. Enquanto a bala queimava em seu peito, de Assis conseguiu sentir-se pior: as tantas vozes entravam em sua cabeça e perturbavam a sua mente confusa. Ele ouvia mulheres fofocando entre si, dizendo que Seu Pontifácio era a própria encarnação do demônio, crianças berrando, velhotes nervosos, sons indistintos, e sinos celestiais batendo em tom de boas vindas. Mas aí ele achou que já era muita sacanagem.

Jurubeba o abanava com um leque emprestado, sua mãe retornava com um copo de água fria; mas ele queria sair dali. Deixar os convidados para trás, se libertar dos seus olhares prescrutadores, como se pudessem ler os seus pensamentos. Ele sabia, a maioria estava ali porque fora convidada, mas teria desejado passar o final de semana com a família no sítio ou jogando futebol. Para eles, fora uma péssima ideia vir ao casamento, por isso praguejavam em segredo às suas costas. Um segredo, aliás, muito mal escondido pela cara feia que cada um deles fazia. O rapaz quis exclamar e dizer a verdade, vieram porque queriam se divertir, comer e se fartar. Nunca perdiam uma oportunidade como essa e muitos nem eram conhecidos seu, mas figurinhas tarimbadas em todas as festas da igreja local. Se tinha pipoca, marcavam presença; se tinha bolo e refrigerante, marcavam presença. Bastava ter comida.

Ele levantou e abriu caminho em meio à multidão que o cercava. Dona Irene insistiu para o filho tomar a água, mas ele não deu ouvidos, alegando precisar se lavar; garantia poder ir sozinho.

Claudicando mas por força da bala, seguiu pelo corredor da lateral apertando na garganta os gemidos, para não chamar qualquer atenção. Era um vão vazio neste momento, não muito longo; uma curva mais à frente levava ao banheiro masculino. Era lá onde queria estar, livre de cochichos e sussurros. Com efeito, o seu casamento com Jurubeba estava se transformando num inferno; e a sua vida conjugal ainda nem havia começado! Arrependia-se de tê-la pedido em matrimônio; agora via o quanto esteve errado. Sim, ele não quisera saber de mais nada, estava iludido, pensando que seria feliz. Mas ela dissera a verdade, a verdade que ele não quis ver. Jurubeba não o amava e ele jamais seria feliz. A sina do fracasso o perseguiria até a morte. De Assis não pôde conter as lágrimas. Vivia uma mentira, fazendo parecer um conto de fadas. Todos os seus temores enfim se realizariam, e ele mesmo podia ver como seria o seu futuro, uma sombra espectral de dor e infelicidade enevoava as suas esperanças. Tudo começava a dar errado a partir dali, era o marco inicial da sua ruína. Se em uma noite poderiam acontecer tantas coisas terríveis, o que dizer de uma vida inteira na desgraça? Só o pensamento despertava nele os mais medonhos calafrios. Renegara o único amor verdadeiro, real, de sua vida; estupidamente, diga-se de passagem. E mesmo quando este bateu em sua porta, simplesmente não deu fé, e deixou que fosse embora. Oh, céus, quanta demência! E ela agora deveria estar morta! Morta! Devorada por zumbis canibais, sedentos por sua carne fresca e macia. Como ele podia ter deixado isso acontecer? Calafrios tomavam conta do seu corpo, e ele se permitiu desabar, chorando pesadamente a derrota monumental que sofria.

Era tudo culpa sua, sim era...

 

 

Toda véspera de casamento é agitada, mas o que de Assis não suportava era a mãe tagarelando na cozinha junto com a empregada e duas mulheres fuxiqueiras da vizinhança. Bem que ele gostaria de um negócio mais discreto, só no cartório, mas a noiva insistiu por uma cerimônia, com direito a véu e grinaldas e tudo. Por causa disso tinha de aguentar a algazarra e ainda ouvir a opinião de todos, considerar os conselhos bobos sobre como se vestir e fazer a barba, como se ele não soubesse o que era um barbeador ou pôr uma gravata. Aliás, a dele era de zíper. Mas tentavam convencê-lo de que uma borboleta ficaria melhor, e ele sorria aquele sorriso falso para ficar só na evasiva e poder aparecer depois com a gravata que ele tinha mesmo. É claro que ele não estava muito aí para a forma como deveriam ser feitas as coisas, mesmo porque não era por sua vontade que ia se casar para uma multidão de pessoas ver.

A campainha tocou ao meio-dia e o rapaz se prestou a atendê-la, evitando assim ter de ouvir mais conselhos de gente que nem sequer era feliz no próprio casamento para poder dar conselhos sobre matrimônio a outrem. Ele abriu a porta e para a sua surpresa estava lá a última visita que esperava num dia como aquele: Natalina, o amor de sua vida por quase quatro anos, até que ele mesmo perdeu as esperanças de um dia ser feliz ao lado dela. Uma moça cativante, e não apenas pelo capricho com que a natureza a dotou, mas por uma variedade de qualidades raramente vistas numa garota qualquer; a primeira era não ser uma cabeça-de-vento, por exemplo. Não significando que todas as raparigas de sua idade eram fúteis, mas a falta de conteúdo é bastante comum em tempos como este, onde entretenimento de massa é televisão no domingo e o Google substituiu os livros de escola para muitas crianças. Ela estava parada na sua porta, exatamente como de Assis sonhara por todos esses anos. Um sorriso maravilhoso iluminava sua face linda, digna de atriz de cinema nacional (sim, ele era entusiasta do cinema tupiniquim e mais fã ainda da mulher brasileira), reacendendo a chama de uma paixão que ao menos para ele não havia terminado, não de verdade. Ela tirou os óculos de sol com delicadeza e disse.

— Oi. - Olhava para ele com uma expressão divertida ou talvez um pouco receosa. - Eu tava de passagem e resolvi te ver - disse, voltando a cabeça rapidamente para o carro estacionado na frente da casa. - E aí, como vão as coisas?

— Vão bem - respondeu. - Entra um pouco, deixa eu te oferecer uma água pelo menos.

— Não, não - recusou. - Eu queria saber se você tá bem porque na verdade eu preciso te dizer uma coisa. - Baixou os olhos, passou a mão pela vasta cabeleira meio sem-jeito e tornou a fita-lo. - Eu fui a uma vigília de oração ontem - hesitou - e tive uma revelação. Nela eu via você casado com a Jurubeba e você... - pausou procurando uma maneira amena para o que ia dizer. Optou pela objetividade. - não era feliz.

De Assis era todo ouvidos. Ela continuou.

— Eu via vocês com muitos filhos, mas morando numa casa pobre e com muitas contas para pagar. Você não conseguia prosperar e a sua carreira profissional se resumia ao fracasso. Aí todas as noites a Jurubeba te cobrava e colocava a culpa em cima de você pela miséria que estavam passando. Mais tarde ela começava a te trair e a sair com os seus vizinhos e com o seu melhor colega de trabalho, até arrumar emprego num prostíbulo. O seu filho mais velho assumia ser gay aos doze anos e...

— Ei, ei - interrompeu. - Por que está me dizendo isso agora?

— Bem, eu não queria que você casasse enganado, então...

— Olha aqui, eu vou casar com a Jurubeba amanhã, entendeu?, você não pode simplesmente bater na minha porta e falar mal dela desse jeito.

— E-eu não estou falando mal da Jurubeba, acredite. Pelo contrário, eu queria muito te ver feliz. - Suspirou e depois continuou a dizer. - Eu sempre gostei de você, cara. Eu ficava te olhando, observando o teu comportamento na igreja, eu via que você também olhava pra mim e eu achava isso legal. Ficava imaginando o dia em que você me pediria em namoro; mesmo depois que você começou a namorar a Jurubeba eu não perdi as esperanças e acreditei que tudo ainda daria certo entre nós dois. Eu até me lembro de quando a Jurubeba conversava a seu respeito com as meninas. Ela dizia que jamais aceitaria namorar um cara tão desajeitado e só estava nessa porque ela também não tinha opções, que era uma encalhada e tal. Daí vocês noivaram e eu fiquei preocupada, mas continuei confiando que uma ora você ia se dar conta do erro. Então a Jurubeba começou a falar que ia casar porque os pais já não tinham mais condição de sustenta-la com o que ganhavam lá no interior e os tios agora tinham um neto pra criar. Não sei como ela pôde falar uma coisa dessas...

— Quem sabe, talvez devesse ter me dito isso antes - confessou de Assis, um tanto aborrecido por só agora ela ter se declarado.

Natalina olhou-o com um novo lampejo de admiração.

— Minha nossa cara, você tá tão lindo. Pena que a Jurubeba não seja capaz de te dar o valor que você merece.

Ela afastou-se lentamente, retomando o caminho de volta para o carro, onde o pai a esperava. Realmente, não era uma garota de se jogar fora. Morena, de pele clara, portadora de um corpo e saúde invejáveis. Não à toa era personal trainer de academia, tendo terminado a pouco a faculdade de Educação Física. O sorriso encantador e o timbre argentino de sua voz constituíam uma atração à parte, o nariz comprido e estreito, longe de ser feio, denotava um charme e beleza particular, só seus, a somar-se às formas curvilíneas visivelmente trabalhadas. Especialmente hoje estava fantástica, de malha roxa, colã preto e tênis; os cabelos ondulados e soltos, cortejados pelo vento a toda hora. Ela recolocou os óculos, lamentando a sorte de ambos.

— Queria tanto que as coisas tivessem sido diferentes entre a gente.

Deu um último sorriso, entrou no carro e saiu. De Assis voltou para dentro de casa com raiva de si mesmo, com raiva de Natalina. A mãe perguntou quem era enquanto ele subia as escadas.

— Nada. Só uma amiga de passagem.

Ele nem poderia imaginar que nunca mais a veria...

 

 

De Assis a considerou uma tola, mas agora entendia o quanto esteve errado por pensar assim de alguém tão adorável. Afinal, as garotas realmente esperam uma atitude dos seus pretendentes, ao invés de se jogarem nos braços destes. Pelo menos, a maior parte delas. Era tolice sim, mas da parte dele, esperar o contrário. Especialmente quando nem ele fora corajoso o suficiente para abrir o coração e exprimir seu desejo por ela. Tudo que restava era a tristeza. Tristeza pela perda, por saber que hoje, talvez, poderia estar se casando com a sua amada e não com Jurubeba, uma interesseira preparada para arruinar sua vida. Provavelmente, Natalina não estava mais com ele, deveria ter se transformado numa dessas horrendas criaturas, vagando sem destino na escuridão da noite em busca de carne humana; mas seria lembrada sempre com carinho por tudo que representou para ele até o último dia de sua existência. Eternamente, moraria em um lugar guardado em seu peito, onde ninguém poderia toma-la de si outra vez. Não sabia se algum dia seria capaz de perdoar a si mesmo, mas tinha uma certeza: jamais poderia ser feliz ao lado de Jurubeba.

Prosseguiu forçosamente até o banheiro, mas se ele achava que a noite não poderia lhe reservar maiores surpresas, estava muito enganado. Redondamente enganado, até. Um ruído musical fugia do recinto, e aproximando-se mais pôde ouvir, Well it looks like the road to heaven / But it feels like the road to hell / When I knew which side my bread was buttered / I took the knife as well. Mas quem teria esquecido um aparelho mp3 ligado no banheiro? Invadiu-o sem se preocupar com o que iria encontrar lá dentro, mas o arrependimento foi quase que de imediato. Um sujeito trajado espalhafatosamente ocupava o vaso sanitário, com as calças descidas até os tornozelos, exalando um odor fortíssimo. De Assis franziu o cenho com asco e quis sair depressa, murmurando um “Me desculpe” sem muita convicção.

— Não, espere - respondeu o outro, abaixando o jornal que ocultava a sua cara de palhaço. - Acho que terminei aqui.

Subiu a roupa e levantou-se sem dar descarga. Era a figura icônica de um palhaço, com nariz vermelho e cara branca, que no seu caso parecia pouco hilariante. Desligou o aparelho no bolso e ofereceu a mão sem lavar para um cumprimento formal.

— Meus parabéns - disse ele.

— Por quê? - questionou o noivo, ignorando a mão estendida para si.

Habilmente, o palhaço o puxou pela gravata e sacou uma faca, a qual fez questão de apertar bem rente ao pescoço do infeliz.

— Você é o primeiro otário que eu pego hoje! - Roubou-lhe a carteira e soltou um riso de sarcasmo. - Como eu gosto de dizer: “Perdeu, preibói!”.

O bandido meteu um golpe na barriga do rapaz e o largou ao chão, como se fosse lixo.

— Mas que carteira mais sem-graça, cadê dinheiro nisso aqui?! Essa merreca não paga nem o almoço do palhaço!

O jovem rolava de um lado para o outro, agonizante. O bandido agarrou o seu braço e pegou o relógio, depois o celular, o lenço de seda no bolso do paletó e até o pingente dourado.

— O que é que você vai fazer com isso, pô?! - gemeu o pobre rapaz.

— Vender na feira, ora bolas - respondeu o meliante. - Além do mais, morto não precisa de nada disso.

E de Assis pensando que a humanidade já era...

— E o player do George Michael? - indagou.

— Roubei de um magnata. - confessou o bandido. - Tô vendendo por 500 pratas, quer?

— Agora só se for no crediário.

Uma poça rubra se formava ao redor do ferido. O homem olhou para ele com desprezo enquanto guardava os objetos furtados num saco e o levava às costas.

— Desgraçado de uma figa - disse, parecendo indignado. - Como é que tu nasce só uma vez e ainda é desse jeito? Pensava que ia se casar com estrela, né?, Angelina Jolie, Salma Hayek, Mônica Bellucci... - Cassandra Peterson. - confessou. Apesar de não apreciar tanto assim atrizes internacionais nem mulheres mais velhas, esta, ícone de sua infância, era exceção.

- Nada disso - continuou o palhaço. - Aqui tá tu, ferradão, sem dinheiro, pronto pra casar com uma guria folgada, doidinha pra te meter um monte de chifre.

O palhaço ladrão continuou a troçar.

— Mas tu pode morrer. E é a melhor coisa que tu faz. Ninguém vai sentir muita falta de ti não. Nem a tua mãe. Ela vai chorar o teu enterro, mas depois vai achar que foi melhor assim, que foi do jeito que Deus queria e que tu era mesmo muito mole pra essa vida de cão. Aí ninguém mais vai se lembrar de ti. Ninguém vai saber quem tu era, não vai ter ninguém pra escrever a tua história. - O palhaço deu um riso. - Ah, e tu achava que ia ser tema de livro do Paulo Coelho, né?, os gringo ia tudo lê sobre a tua vida!

— É - admitiu o jovem, revirando-se em dor. - De Assis Decide Morrer.

— Agora eu vou indo - disse o bandido, apanhando o chapéu e uma bengala num canto do banheiro. - que esta conversa já tá me deixando deprimido.

O palhaço afastou-se passeando divertidamente enquanto assoviava a Aquarela do Brasil, porém não antes de se despedir, pois também tinha seus momentos educados.

— Até mais colega. Nos vemos no além.

De Assis desejaria nunca mais encontrá-lo novamente, nem aqui ou em qualquer outro lugar. Mas precisava de uma coisa.

— Ei, volta aqui maldito - gritou o rapaz. -, termina o que começou!

O palhaço deu um giro nos calcanhares e resolveu atender à súplica do infeliz. Afinal, era falta de cortesia não atender ao último pedido de um moribundo. Sacou a arma e veio a galope.

— Já que insiste, aqui vai mais um por conta da casa!

O homem cravou a lâmina bem fundo no peito de de Assis, que berrou à dor lancinante do golpe.

— Espero que esteja mais satisfeito agora.

Voltou a pegar suas coisas e desta vez foi embora, saindo por uma porta no fundo do corredor. Mas não havia zumbis lá fora?

Um grito agudo e o ruído de um pescoço quebrado chegaram aos ouvidos do moço. Bom, isso não era problema seu. Esperou o corpo esfriar e a visão escurecer. Esperou mais um pouco. Nada. Sentia um incômodo terrível por causa dos ferimentos, mas não parecia estar deixando este mundo. Um novo burburinho se formava agora, deviam estar procurando-o. Não podia deixar que o vissem assim; arrastou-se o mais apressadamente para a escada, erguendo os braços para galgar os degraus como um nadador na piscina. Contudo, um rastro de sangue denunciava todo o percurso de sua subida. Venceu dois lances de escada com muita determinação para depois nausear o cansaço. Tomou fôlego e continuou pela ante-sala, iluminada apenas por uma réstia de luz que perpassava da porta vitral da galeria. Aqui eram guardados os ornamentos da igreja, vários jarros com flores plásticas ocupavam a mesa no centro. Ele aproveitou para quebrar algumas delas em sua cabeça. Quando se convenceu de que a brincadeira era inofensiva, avançou para o passo final.

Abriu a porta da galeria. Vários lances de bancos simetricamente organizados de cima a baixo possibilitavam uma visão completa do altar de onde quer que se sentasse. Era um espaço um tanto amplo, com ventiladores no teto e também com pedestal. Todos estavam parados, pois a galeria estava vazia. De Assis se preparou, fazendo força para manter-se em pé, apoiado na mureta que o separava de uma queda de seis ou sete metros. Era o seu último recurso, sua última chance de evitar um casamento indesejado com Jurubeba. Precisava dar certo. Ou errado, sabe-se lá...

Conseguiu pular no momento em que tia Gerisvânia alcançava a galeria, o chamando pelo nome repetidas vezes durante o percurso até ali.

Ele fez uma trajetória de curta distância indo de encontro a uma fileira de assentos de madeira. Um grande estrondo reverberou ao longo da extensão, os convidados e não-convidados ficaram estarrecidos. Não esperavam uma entrada do noivo tão bizarra. Mais uma vez, de Assis provou que estava disposto a surpreender a todos naquela noite tão incomum. Mas para sua infelicidade, fora uma viagem curta demais. Talvez, um braço e costela quebrados, nada mortal.

A mãe e os parentes vieram de imediato socorrê-lo. Estenderam-no num banco, trouxeram álcool para esfregar em seus pulsos, mertiolate e band-aid para estancar os sangramentos, e pomada para resfriado, um “remédio” com poderes curativos quase xamânicos na opinião de nove entre dez pessoas presentes no lugar.

— Meu filho, meu filho - chorava a mãe. - Você tá bem, meu filho, fala pra mamãe?!

— Tô bem... - Foi a resposta.

— Mas como que você tá bem, meu filho, olha só isso, todo ensanguentado, meu Deus...! - Dona Irene não se decidia se soluçava ou dizia.

Bem pertinho de morrer... - resolveu.

Algumas pessoas murmuravam ao redor dele alguma coisa sobre Seu Pontifácio, que ele era o “líder” da turba lá fora, que era só de Assis casar e tudo voltava ao normal, com o caipira retornando para a sua terra e levando os “seus”. De Assis ouvia isso enquanto a mãe passava o pente em seu cabelo, arrumando o desalinho.

— Já assistiu Helllraizer? - perguntou um convidado do noivo.

— É claro - respondeu.

— Ele é tipo o Pinhead, tá ligado?, o chefão dos cenobitas, a capetada toda.

— Mas e o cubo? - quis saber.

A voz no microfone chamou os noivos a comparecerem ao altar neste instante, por isso de Assis não pôde ouvir o resto da explicação do amigo. Bom, ficava para depois que trocasse as alianças com Jurubeba.

A contragosto foi levado pelos parentes, que o ajudaram a permanecer de pé. Ora, a cerimônia precisava acabar, porque amanhã é segunda-feira e todo mundo tem que acordar cedo para trabalhar. Era um sacrifício pessoal em prol da felicidade alheia, mas se o Batman pode fazer algo assim, de Assis também podia. Afinal, quem disse que ele não é um super-herói?

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  • Publicado em: 20/04/2017
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