A Garganta da Serpente
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Desassossego no sossego do cinema

(Ivaldo Gomes)

Fui ver ontem (15/07) o lançamento do curta metragem Desassossego do poeta Marco di Aurélio e equipe independente de incentivos fiscais. Essa é outra boa característica dos trabalhos de Di Aurélio e equipe competente que cada vez que se junta nos surpreende a cada trabalho. O seu curta anterior Enraizados é aquele registro surpreendente da vida isolada no mundo do sertão inacessível. Agora esse belíssimo registro em ficção científica, mas só que ‘de vera’. Ver o desassossego do nosso ancestral com o aparecimento do futuro incompreensível em que nos tornamos é uma alegoria por demais criativa.

Imagens belas captadas no cariri paraibano - no lajedo de Pai Mateus – onde Marco di Aurélio e equipe, nos fazem regressar no tempo, onde o simples e reluzente brilho de uma pedra diferente poderia servir de amuleto, decoração, objeto de arte. E dessa simples relação - homem/objeto de atenção – o simples brilhar da pedra e a tentativa de compreender esse fato, surgirá o conhecimento do mundo de hoje. Esse que o notebook onde escrevo se transformou. Mas vê-lo ali no meio do tempo, há milhares de anos atrás, nos regata a ancestralidade, à vontade e a curiosidade de existir. Num cenário perfeito, luz deslumbrante, atuação tão significativa quanto real. Maquiagem, adereços verossímeis ao tempo e ao espaço do que a ficção possa propor.

Marco di Aurélio (pra alegria da gente) não é só um poeta sensível e comprometido com o seu tempo. É também um excelente diretor e ator. Sem uma única palavra o nosso universo ancestral se debulha sobre nós. É como se um lugar específico nos desse o ‘desassossego’ de quatorze preciosos minutos. ‘O tempo do curta metragem deixa uma sensação de que acabou mais cedo do que devia’ comentava Marco ao final da apresentação. E foi isso mesmo o que aconteceu. Num filme belo – em vários sentidos – a tela se apaga e nos resgata dos milhares de anos em que fomos meros caçadores da sobrevivência diária.

O trabalho de Marco di Aurélio e equipe luxuosa nos deram uma jóia da cinematografia paraibana. Que vai fazer o maior sucesso nas mostras nacionais e internacionais. Por um motivo muito simples: é cinema, é poesia, é enredo, é história contada por quem quer mostrar o que se tem de melhor no cenário exuberante da Paraíba. O cariri paraibano (a cidade Cabaceiras e adjacências) tem sido cenário de filmes importantes na retomada do cinema brasileiro. E nós – do alto daquele lajedo - vamos escrevendo pro mundo um testemunho da nossa riqueza e diversidade cultural que possuímos.

Se você puder assistir o curta metragem de Marco di Aurélio e equipe, no sossego de alguma sala de cinema ou mesmo no escurinho da sua sala em casa, você verá que evoluímos muito. Mas talvez tenhamos perdido aquele olhar de contemplação que o nosso ancestral, encarnado no ator Di Aurélio, soube tão também nos passar. Talvez pudéssemos ter nos transformado em coisa melhor, mas foi em que nos transformamos até agora. E claro, a ‘obra’ não está terminada ainda. Não a nossa. Mas a de Marco Di Aurélio e equipe esta mais que pronta e precisa ser vista. Anote ai: Desassossego é o nome do mais novo sucesso do cinema Paraibano.

Desassossego
Direção: Marco di Aurélio
Duração: 14 minutos
Ano: 2010

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