A Garganta da Serpente
Os habitantes perfis e biografias dos autores

Anete Antunes

Entro em cena. Apenas sete horas da manhã. Margeio o limiar da ignorância.
Margem inóspita? Veja, dessas plantas dávamos aos coelhinhos na infância.
Veja, ainda tenho minhas lembranças. E às palavras, que são a um mesmo tempo açoite e acalanto: meu rio de degelo.
C. procurou-me. Andava buscando-me. Sei. Sabia. Sentia.
Partirás em breve. Porque me procuravas? Para que partilhemos nossas frustrações? Não creio. Ou decisões de futuro? Não sei mesmo o que pensar...Causa-me estranheza. Talvez quisesses encenar uma rendição, um apertar de mãos, um "não te abandono, apenas procuro meus caminhos".
Pensarás mesmo dessa forma? Talvez quisesses assim minhas palavras: "Sim, vá, não o quero mais, por outra lado, te quero bem, vá, tem e terá a minha benção e a minha eterna amizade". E a dor? Não reside aí, nessa tua pele tão alva. Mas (tu) buscava-me trajado com teus vermelhos óbvios, sim, o eterno vermelho de tua sedução nórdica, de teus longos pelos loiros, franjas e frutos do meu desejo por tantos anos. Quantos? Não sei...E porque? Não posso esquecer o texto sobre julgamentos enviado por um novo e querido amigo. É sábio, dá linha aos pensamentos como a uma pipa ao vento. Lido ao contrário: a tranqüilidade do não-saber. A tranqüilidade do saber apenas o que importa.
Aquilo que pousa pena perdida (ou jogada?) suavemente a teus pés. Ou que escancara verdades ocultas nas letras das musicas aleatórias e os erros negados frutos de omissão e culpa, proferidos através de (ainda assim ocultos) outras bocas. Só tu saberás. E sempre haverá um perdão.
Mas vá lá, perde-te de mim. Não há volta. Há quanto tempo sei que não há volta? Muito tempo. Desde que aportamos nesta cidade fantasma. Desde então? Desde antes. Minha busca pelo amor partiu muito antes, num raro trem nas madrugadas do Butantã. E saiba que saiu apenas com as roupas do corpo e um bilhete de Ida. E o que encenava eu, antes e agora? Uma grande farsa?
Um segredo. Escondia-o de mim, de ti, de todos. Dei-lhe asas, alimento, meus carinhos. Dei-lhe uma cara, um nome, um sobrenome, um vulto e uma epígrafe. Dei-lhe sombra, mitos. Gritos estridentes na montanha. Espinhos. Uma cama.Muita calma. Levanta-se pela manhã arrastando as asas, resmungão, remelas nos olhos, um bebê esse meu segredo. Nasceu há tempos. E ninguém soube.
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